Conheça o livro: O Negro no Futebol Brasileiro
- Gabriel Garcia Borges Cardoso

- há 2 dias
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A obra clássica "O Negro no Futebol Brasileiro", de Mario Filho, analisa a trajetória de resistência dos atletas negros no esporte mais popular do Brasil. O autor detalha a transição de uma modalidade inicialmente aristocrática e excludente para um espaço de afirmação da identidade nacional.
Os textos destacam momentos históricos decisivos, como a ascensão do Vasco da Gama em 1923 e a consagração mundial de ídolos como Leônidas da Silva e Pelé.
O livro é considerado um pilar da cronologia esportiva, utilizando a história oral para imortalizar a contribuição negra na construção da cultura brasileira.
O Elitismo Amador e a Segregação Institucional (Racismo Estrutural)
Nas primeiras décadas do século XX, o futebol refletia a rigorosa estratificação social do país. Era dominado por clubes da elite (formados por estudantes de direito, medicina e engenharia), e a presença negra era rechaçada. Mario Filho expõe o amadorismo como um mecanismo de controle de classe e raça, onde o tempo ocioso para treinar era um privilégio burguês: "O jogador branco tinha de ser, durante bastante tempo, superior ao preto" (Mario Filho, 2010, p. 73).
O espaço físico refletia essa divisão sociológica entre a academia e a escola pública:
O branco pobre, o mulato, o preto, estabelecendo a diferença entre o grande e o pequeno clube. A academia e a escola pública. O campo cercado, com arquibancada e tudo, e a pelada, um campo sem grama, pelado. Quando não entre o field, como saía nos jornais, ou ground, e a rua. Um verde macio, de grama bem aparada, um tapete, o outro de barro, de pedra. Muito diferente. O branco dos field, dos grandes clubes, tendo ainda por cima um professor, o capitão do time gritando sem parar, em inglês. O preto das peladas, das ruas, não tendo ninguém (Mario Filho, 2010, p. 73).
O futebol operava sob a lógica de que o homem negro e o trabalhador braçal eram indignos de representar os clubes, refletindo a ideologia da época de "superioridade de raça, da raça branca sobre a raça preta, a superioridade de classe, da classe alta sobre a classe média, da classe média sobre a classe baixa" (Mario Filho, 2010, p. 68).
A "Revolução Vascaína" e a Reação das Elites
A grande ruptura dessa hegemonia branca ocorreu em 1923, com a ascensão do Club de Regatas Vasco da Gama, que venceu o campeonato com um time formado por operários, negros e mulatos. Segundo Mario Filho, os clubes da elite "estavam diante de um fato consumado. Não se ganhava campeonato só com times de brancos. Um time de brancos, mulatos e pretos era o campeão da cidade" (Mario Filho, 2010, p. 126).
A reação conservadora foi imediata e institucional. Os clubes tradicionais romperam com a Liga e fundaram a AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos) com o objetivo de expurgar os atletas negros, mulatos e de origem humilde que haviam subvertido o monopólio elitista. A AMEA passou a exigir sindicâncias minuciosas sobre a vida e a profissão dos atletas, além de instituir um rigoroso exame de alfabetização (preenchimento da súmula), atuando como uma barreira eugênica e social.
Assimilação e a Política do Embranquecimento
Diante das barreiras impostas pela elite dominante, o negro e o mulato adotaram estratégias dolorosas de assimilação e negação da própria identidade. O autor destaca o processo de "embranquecimento", no qual o negro ascendente tentava apagar seus traços raciais: "Realmente os pretos do futebol procuraram, à medida que ascendiam, ser menos pretos. [...] Mandando esticar os cabelos, fazendo operações plásticas, fugindo da cor" (Mario Filho, 2010, p. 17).
Dois exemplos clássicos dessa violência simbólica são detalhados na obra:
Carlos Alberto: O jogador mulato que, para atuar no elitista Fluminense, cobria o rosto com pó-de-arroz, originando o apelido pejorativo que depois foi assimilado pelo próprio clube.
Arthur Friedenreich: O grande ídolo mulato de olhos verdes que passava meia hora no vestiário com uma "toalha amarrada na cabeça para amansar o cabelo duro, rebelde, 'não nega'" (Mario Filho, 2010, p. 173).
O Estilo "Dionisíaco" e a Ressignificação Cultural do Esporte
Ao citar Gilberto Freyre, em nota de rodapé, Mario Filho apresenta que o futebol original britânico, bem-ordenado e "apolíneo", foi subvertido pela herança cultural afro-brasileira e ameríndia. O futebol brasileiro tornou-se "dionisíaco", absorvendo os movimentos da capoeira, a malandragem e o ritmo do samba.
Gilberto Freyre em Sociologia, segundo volume, página 375, escreveu: “O mestiço brasileiro, o baiano, o carioca, o mulato sacudido do litoral, joga um futebol que não é mais o jogo apolíneo dos britânicos mas uma quase dança dionisíaca.” E mais adiante, página 423, nas notas do capítulo III: “No futebol como na política o mulatismo brasileiro se fez marcar por um gosto de flexão, de surpresa, de floreios, que lembra passos de dança e de capoeiragem. Mas sobretudo de dança” (Mario Filho, 2010, p. 217).
O futebol passa, assim, a sublimar os impulsos mais primitivos da nossa formação social: "o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é" (Freyre, 2010, p. 25).
É nesse espaço lúdico e coreográfico que, segundo o autor, o negro se liberta taticamente, inventando o drible e a ginga como ferramentas de sobrevivência e improviso frente à força física e à organização tática dos brancos.
O Trauma de 1950 e a Emancipação Simbólica com Pelé
Mario Filho dedica capítulos essenciais para discutir o impacto do "Maracanazo" (derrota na Copa de 1950) na psique nacional. A derrota ressuscitou o racismo latente da sociedade brasileira, que passou a culpar os jogadores negros pelo fracasso, retomando discursos sobre a "inferioridade" racial: "O brasileiro que acusava os brasileiros naturalmente desabafava [...]: – A verdade é que somos uma sub-raça" (Mario Filho, 2010, p. 290). Consequentemente, "três pretos foram escolhidos como bodes expiatórios: Barbosa, Juvenal e Bigode" (Mario Filho, 2010, p. 290).
A redenção social e racial descrita por Mario Filho consolida-se com o advento de Pelé. Diferente de seus antecessores que buscavam o embranquecimento, Pelé, segundo Mario Filho (2010), representa a aceitação e o orgulho de sua identidade. Com isso, Pelé coroa o ciclo iniciado nas primeiras décadas do século, sendo o ícone que completa a integração iniciada na Abolição: "Faltava alguém assim como Pelé para completar a obra da Princesa Isabel. O preto era livre, mas sentia a maldição da cor. A escravidão da cor. Donde tanto preto não querendo ser preto" (Mario Filho, 2010, p. 341).
Considerações
A obra de Mario Filho é fundamental para pesquisadores da área de Educação Física, pois explicita como o clube e as normas burocráticas foram utilizadas simultaneamente como instrumentos de segregação e de resistência no Brasil.
Entretanto, precisamos avançar nas pesquisas e estudos pois, de certa forma, Mario Filho (2010) possui uma visão "romântica" do assunto, isto é, entende que com o Pelé, as questões raciais e de classe, no futebol, chegariam a um fim:
Assim Pelé cumpria uma missão. A de exaltar a cor de Dondinho e dona Celeste, de vovó Ambrosina, e de tio Jorge, de Zoca e Maria Lúcia. Para permitir que os pretos, brasileiros e de todo o mundo, pudessem livremente ser pretos (Mario Filho, 2010, p. 343).
A partir de estudos de outras obras que se debruçam na análise do Futebol na sociedade brasileira - e que serão apresentadas em textos futuros, aqui no Almanaque da Cultura Corporal -, percebemos que, na realidade, as questões raciais, de gênero e de classe, além de continuarem presentes nos dias de hoje, serão responsáveis pela formação de estruturas de controle e de estigmas dentro e fora das quatro linhas do gramado.
Referências
MARIO FILHO. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2003, 5. ed., 2010.



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