Os Camisas Negras e a luta antirracista no futebol brasileiro
- Gabriel Garcia Borges Cardoso

- há 1 dia
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A história que é eternizada pelas arquibancadas de São Januário:
Eu vou torcer
Aqui eu ergui meu templo para vencer
Eu já lutei por negros e operários
Te enfrentei, venci, fiz São Januário
Camisas Negras que guardo na memória
Glória, lutas, vitórias, esta é minha história
Que honra ser
Saiba eu sou vascaíno, muito prazer (jamais terá)
Jamais terás a Cruz, este é meu batismo
Eu tive que lutar contra o teu racismo
Veja como é grande meu sentimento
E por amor ergui este monumento
Para compreender a importância do fenômeno dos "Camisas Negras", é necessário analisar o contexto socioeconômico do Brasil na transição do século XIX para o século XX. Quando a abolição da escravidão ocorreu, a população negra foi libertada sem qualquer tipo de acesso à terra, a emprego formal ou a moradia digna. O Estado brasileiro deixou essa população completamente desamparada, enquanto os proprietários de escravizados recebiam incentivos que, posteriormente, financiaram a imigração europeia para o Brasil.

Nesse cenário, as formas de sobrevivência encontradas pelas pessoas negras, bem como suas manifestações (como a capoeira) eram frequentemente rotuladas de maneira pejorativa pela elite branca como "vadiagem" ou "malandragem", sendo, em muitos casos, proibidas (ler sobre a história da Capoeira).
Foi nesse contexto de exclusão que o futebol chegou ao Brasil, no final do século XIX, trazido da Inglaterra como um esporte elitizado e praticado estritamente por brancos de classe média alta. Como a capital federal na época, o Rio de Janeiro buscava se espelhar nos modos de vida europeus, tornando o futebol um símbolo de modernidade e civilidade que não poderia faltar à elite brasileira. O esporte, assim, era dominado por clubes fechados para ingleses, estudantes e pessoas de "boa família", que impunham o amadorismo e mensalidades altas para garantir a exclusão das camadas populares, dos negros e dos analfabetos.
A ascensão do Vasco da Gama e a formação dos "Camisas Negras"
Fundado em 1898 por imigrantes portugueses, o Vasco da Gama dedicava-se inicialmente ao remo (Clube de Regatas), esporte mais popular da época.

Aqui já cabe um ponto importante nessa história: em um ambiente bastante hostil para a população negra, o Vasco da Gama conquistou, em 1905, seu primeiro título de Campeão de Remo do Rio de Janeiro. O presidente do clube era Cândido José de Araujo, eleito em 1904 e primeiro mandatário negro da agremiação. No ano seguinte, “Candinho” seria reeleito.
O clube aderiu oficialmente ao futebol apenas em 1915, filiando-se no ano seguinte à Liga Metropolitana para disputar a Terceira Divisão. Diferentemente de clubes como Fluminense, Botafogo e Flamengo, que recrutavam jovens ricos e brancos, o Vasco começou a buscar seus jogadores nas ligas suburbanas da cidade, sem se importar com a condição social ou a cor da pele dos atletas.
Sob o comando do técnico uruguaio Ramon Platero, contratado em 1922, o Vasco revolucionou o esporte ao profissionalizar a rotina de treinamentos e focar na habilidade dos atletas, formando uma equipe composta por negros, mulatos, brancos pobres e operários. Essa equipe conquistou a segunda divisão em 1922 e, no ano seguinte, em 1923, já na elite do futebol carioca, sagrou-se campeã de forma avassaladora, com 11 vitórias, dois empates e apenas uma derrota.

Pela cor de seus uniformes e por ser, majoritariamente, composta por jogadores negros, esse time lendário foi apelidado pela imprensa e pela sociedade como os "Camisas Negras".
O sucesso dessa equipe causou um profundo abalo na aristocracia carioca. Como relata o autor Mario Filho (2003, p. 11), a vitória do Vasco em 1923 representou uma verdadeira revolução, pois demonstrava que "desaparecera a vantagem de ser de boa família, de ser estudante, de ser branco" diante de operários e negros que jogavam um futebol superior. Além disso, os jogos do Vasco atraíam multidões de trabalhadores que se identificavam com os atletas em campo, popularizando o esporte e incomodando os times da Zona Sul.
A reação elitista e a criação da AMEA
Incomodados com a derrota para um clube formado por operários e negros, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Bangu e América decidiram romper com a Liga Metropolitana no início de 1924. Juntos, fundaram uma nova entidade: a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA).
A AMEA foi criada com o intuito institucional de barrar a ascensão de times populares e implementou regulamentos que proibiam a inscrição de jogadores que não tivessem profissão definida, que fossem analfabetos ou que exercessem trabalhos manuais e braçais. Não é preciso ser um estudioso no assunto para compreender que tais mecanismos eram formas disfarçadas de excluir sistematicamente a população negra e proletária, que ocupava as profissões subalternas e possuía os maiores índices de analfabetismo no período.
O Vasco da Gama, atual campeão, foi convidado a integrar a nova liga, mas sob uma condição: a diretoria da AMEA exigiu que o clube excluísse doze de seus jogadores, sendo sete do time principal e cinco do time reserva, sob a acusação de possuírem "profissão duvidosa". Todos esses doze jogadores eram negros, mulatos ou brancos pobres.
A "Resposta Histórica" de 1924: um marco antirracista
Diante da imposição preconceituosa e racista da AMEA, o Vasco tomou uma decisão que mudaria os rumos do esporte no país. Em 7 de abril de 1924, o então presidente do clube, José Augusto Prestes, redigiu o Ofício nº 261, documento que passaria para a posteridade como a "Resposta Histórica".
Na carta endereçada ao presidente da AMEA, o Vasco repudiou os processos de investigação realizados contra seus atletas - feitos por um tribunal "onde não tiveram nem representação nem defesa" - e recusou veementemente a exclusão de seus jogadores operários e negros.
Em um de seus trechos mais emblemáticos, o ofício declarava:
Estamos certos que V. Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um acto pouco digno da nossa parte, sacrificar ao desejo de fazer parte da A.M.E.A., alguns dos que luctaram para que tivessemos entre outras victorias, a do Campeonato de Foot-Ball da Cidade do Rio de Janeiro de 1923.

Assim, o clube abdicou de integrar a liga de elite, preferindo disputar o campeonato da Liga Metropolitana, no qual se sagraria campeão novamente em 1924.
Esse ofício é considerado o maior episódio de combate ao racismo institucional na história do esporte brasileiro. A atitude do Vasco abalou o pensamento hegemônico da época e mostrou que a instituição não cederia à lógica de exclusão imposta pelos clubes da Zona Sul.
A construção de São Januário e o legado permanente
A recusa vascaína e o imenso sucesso de público nos jogos da equipe forçaram a AMEA a recuar, convidando o Vasco a retornar à liga principal em 1925, desta vez com todos os seus jogadores.
No entanto, uma nova exigência foi feita: o clube precisaria de um estádio próprio, visto que os grandes palcos pertenciam aos clubes de elite, dos quais o Vasco era obrigado a alugar para mandar suas partidas.
Em resposta, "sua imensa torcida bem feliz" e a colônia portuguesa se mobilizaram de maneira inédita. Através de campanhas de arrecadação, o clube comprou um terreno e, importando cimento devido à falta do material no Brasil à época, inaugurou em 1927 o Estádio de São Januário. Durante muito tempo, São Januário foi o maior estádio da América Latina e consolidou-se como um verdadeiro templo e santuário erguido pelo suor da torcida cruzmaltina.

Para além das glórias esportivas, o estádio transcendeu o futebol e tornou-se um importante palco da vida política e social das classes trabalhadoras.
Nas décadas de 1930 e 1940, o presidente Getúlio Vargas utilizou as dependências de São Januário, repletas de trabalhadores, para realizar cerimônias do Dia do Trabalhador e anunciar a criação de direitos fundamentais, como o salário mínimo e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A simbiose entre o clube, seu estádio e a comunidade que o circunda (conhecida como a Barreira do Vasco) mantém-se viva, demonstrando que a agremiação foi estruturada pela base popular.
A Barreira do Vasco é uma favela localizada no bairro Vasco da Gama, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, sendo amplamente conhecida por ser vizinha do Estádio de São Januário. A área que hoje compreende a comunidade foi oficialmente desmembrada do bairro de São Cristóvão no ano de 1998.
Historicamente, o surgimento da comunidade remonta à década de 1930, período em que o então presidente da República, Getúlio Vargas, realizou a doação de terras para a Igreja Católica com a finalidade primária de viabilizar a construção de habitações populares na região. Inicialmente, o terreno era pantanoso, necessitando ser aterrado e, em grande parte, concretado para permitir o assentamento de seus primeiros habitantes, que eram compostos tanto por famílias de pescadores que já atuavam nas redondezas quanto por indivíduos vindos do interior do estado do Rio de Janeiro (Ribeiro; Bernardo, 2025).
A ocupação efetiva e o primeiro forte adensamento populacional do território que formaria a Barreira do Vasco ocorreram a partir da segunda metade da década de 1940. Nessa época, por intermédio de uma instituição do governo chamada Fundação Leão XIII, foi construído um conjunto de casas e fornecida a instalação das primeiras infraestruturas urbanas básicas do local — tais como saneamento básico, arruamento e energia elétrica —, com o claro propósito governamental de edificar ali uma "vila operária". Esse projeto habitacional focava em abrigar famílias oriundas das classes populares que haviam sido removidas ou expulsas das favelas localizadas na Zona Sul da capital fluminense, em decorrência das políticas de reformas urbanas de cunho liberal conhecidas como "bota abaixo", ocorridas nas primeiras décadas do século XX. A partir da década de 1950, com a intensa urbanização e metropolização, o contingente populacional acelerou com a chegada expressiva de migrantes de diversas regiões, predominantemente do Nordeste (Ribeiro; Bernardo, 2025).
A relação intrínseca da Barreira do Vasco com a classe trabalhadora e operária do Rio de Janeiro é o alicerce fundamental de sua constituição demográfica, econômica e territorial. Com o intenso desenvolvimento dos processos de industrialização da cidade, a região passou a acomodar maciçamente trabalhadores das classes populares e operários. Os moradores dessa localidade constituíam a força de trabalho vital que movimentava as indústrias instaladas nas adjacências do bairro — com forte ênfase nas frentes têxtil e automobilística —, além de atuarem majoritariamente nos canteiros de obras da construção civil da metrópole nascente, a exemplo dos milhares de operários que ergueram as pistas da recém-aberta Avenida Brasil na mesma época (Ribeiro; Bernardo, 2025).
Essa consolidação territorial operária é fruto direto da transição urbana e da dinâmica de periferização da capital. Entre os anos de 1930 e 1940, enquanto a aristocracia e a alta burguesia carioca abandonavam paulatinamente as áreas mais antigas da cidade para se instalar na requintada Zona Sul, o núcleo de São Cristóvão e seus arredores consolidavam-se de forma acentuada como uma região industrial, tornando-se o espaço vital para absorção residencial e social das massas trabalhadoras e dos imigrantes na cidade (Ribeiro; Bernardo, 2025).

Até a atualidade, as sólidas bases forjadas pelo trabalho e pelas classes populares na Barreira do Vasco se mantêm pulsantes na relação entre os seus moradores e o Clube de Regatas Vasco da Gama. A favela fundamentou-se organicamente como um "contraespaço", agindo como um território histórico de existência e resistência perante a lógica dominante burguesa de seletividade e elitização da cidade e do esporte. Do ponto de vista socioeconômico, a manutenção e a reprodução da vida e do sustento de expressiva parte da comunidade seguem intimamente dependentes dos eventos promovidos no estádio de São Januário.
A importância dos Camisas Negras para a sociedade e para o futebol mundial
A história dos Camisas Negras é um divisor de águas na cultura corporal e esportiva brasileira. O rompimento das barreiras elitistas capitaneado pelo Club de Regatas Vasco da Gama ao integrar, defender e lutar pelos direitos de atletas marginalizados permitiu a transição do futebol de um espaço exclusivo da aristocracia branca para a maior paixão popular do Brasil. O legado do título de 1923 e da Resposta Histórica de 1924 ensina que as manifestações da cultura corporal nunca estão isoladas das tensões políticas e sociais da época.
Através da força dos Camisas Negras, e da luta de um clube e de sua torcida que se recusaram a curvar-se ao racismo institucionalizado, o futebol brasileiro adquiriu a feição plural, miscigenada e popular que hoje é reconhecida e admirada em todo o mundo.
José Miguel Wisnik, na obra "Veneno Remédio: O futebol e o Brasil", resgata as reflexões do cineasta e ensaísta italiano Pier Paolo Pasolini, que elaborou uma teoria semiológica dividindo o esporte em "futebol em prosa" e "futebol em poesia". O modelo europeu, de bases anglo-saxônicas e germânicas, fundamentava-se na "prosa": um jogo pragmático, pautado na linearidade, no passe triangulado, na força defensiva e na busca causal e calculada pelo gol. Em contrapartida, o futebol sul-americano, tendo o Brasil como seu expoente máximo, é conceituado como "poesia", caracterizando-se pela quebra da linearidade, pela imprevisibilidade, pela criação inusitada de espaços e, sobretudo, pelo drible como um elemento de gratuidade e eficácia.
Essa "poesia" futebolística é indissociável da matriz afro-mestiça brasileira. Wisnik, dialogando com as análises do sociólogo Gilberto Freyre, demonstra como o modo brasileiro de jogar converteu o esporte "britanicamente apolíneo" em uma autêntica "dança dionisíaca". Essa transmutação ocorreu pela assimilação de elementos corpóreos forjados na cultura popular negra, a exemplo do pé ágil e acrobático da capoeira e da cadência do samba. Assim, a entrada do negro e do mulato nos gramados "arredonda e adoça o jogo", substituindo as linhas retas e a lógica mecânica europeia por contornos sinuosos, elípticos e envolventes. O que era uma prática regida estritamente pela lógica racional da modernidade inglesa foi apropriado e reinventado pelo povo.
Compreende-se, portanto, que o rompimento institucional provocado pelos "Camisas Negras" do Vasco da Gama transcende o campo da justiça social; trata-se do momento de afirmação de uma revolução estética e epistemológica. A obstinação dos clubes de elite em manter o futebol branco, de caráter amadorista e exclusivista, representava também a tentativa de manter o jogo preso à sua "prosa" original.
Ao absorver o trabalhador braçal, o pobre e o negro, e ao institucionalizar a defesa desses corpos subalternizados, consolidou-se o ambiente propício para que a disciplina europeia fosse fecundada pela inventividade popular. Através da resistência desses jogadores, o esporte pôde reverter o determinismo de uma nação escravocrata, operando um "espetacular revirão" em que o ato de jogar desobrigado da lógica do trabalho opressivo permitiu o nascimento do futebol-arte, consagrando definitivamente a feição poética, admirada mundialmente e que define o futebol brasileiro.
Referências
CINEFOOT FESTIVAL DE CINEMA DE FUTEBOL. A Resposta Histórica do Vasco da Gama. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=WcQqIAufKqI.
FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.
GLORIAS, lutas, vitorias: essa é minha história. In: SEMANA NACIONAL DE HISTÓRIA CFP/UFCG, 9., 2017. Anais [...]. Cajazeiras: CFP/UFCG, 2017. p. 533-547.
O QUE é Resposta Histórica? Motivo de orgulho para torcida, ato do Vasco completa 100 anos. ge, Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/times/vasco/noticia/2024/04/03/o-que-e-resposta-historica-motivo-de-orgulho-para-torcida-ato-do-vasco-completa-100-anos.ghtml
RIBEIRO, Luis Henrique Leandro; BERNARDO, Marcelo Augusto Campos. A Barreira do Vasco: contraespaço e luta pelo uso do território na metrópole fluminense. Revista de Geografia-PPGEO-UFJF, v. 15, n. 1, 2025. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/geografia/article/view/45550
RIO MEMÓRIAS. A fundação da AMEA e a “Resposta Histórica” do Vasco. Rio Memórias. [S.d.]. Disponível em: https://riomemorias.com.br/memoria/a-fundacao-da-amea-e-a-resposta-historica-do-vasco/
RIO MEMÓRIAS. O caráter discriminatório do futebol e o Industrialismo. Rio Memórias. [S.d.]. Disponível em: https://riomemorias.com.br/memoria/o-carater-discriminatorio-do-futebol-e-o-industrialismo/
RIO MEMÓRIAS. Vasco da Gama, um time desacreditado e campeão indesejado. Rio Memórias. [S.d.]. Disponível em: https://riomemorias.com.br/memoria/vasco-da-gama-um-time-desacreditado-e-campeao-indesejado/
TV BRASIL. Conheça o estádio de São Januário, do Vasco da Gama (RJ) | Estádios Históricos. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Wc_aKmjbh0Q.
VASCO TV. CAMISAS NEGRAS 100 ANOS - A HISTÓRIA DO LENDÁRIO TIME DO VASCO DA GAMA. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M7poDJDnzmo.
WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: O futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.




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