A Democracia Corintiana: o futebol como instrumento de resistência e emancipação sociopolítica
- Gabriel Garcia Borges Cardoso

- há 2 dias
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Para compreender a origem e o tamanho do movimento chamado de Democracia Corintiana, é importantíssimo analisar o cenário político-social do Brasil a partir do golpe civil-militar de 1964.
Assim que as Forças Armadas ascenderam ao poder e romperam com a legalidade constitucional, o futebol, que já se consolidava como o esporte mais popular e um símbolo da identidade nacional, foi diretamente afetado pelas políticas de Estado.

A ditadura militar (1964-1985) instrumentalizou o esporte, utilizando-o ora como ferramenta de propaganda ufanista (é o indivíduo que exibe patriotismo exagerado, vangloriando excessivamente a própria nação, ignorando falhas e ignorando problemas sociais) para enaltecer os feitos do regime militar, ora como um artifício de alienação para desviar o foco da sociedade em relação às crescentes e graves violações de direitos humanos.
A partir da promulgação do Ato Institucional Número Cinco (AI-5) em 1968, que institucionalizou a repressão, a censura e a tortura, a ditadura aprofundou severamente seu caráter autoritário.
Sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), o futebol alcançou o ápice de sua militarização e de seu aparelhamento político. A Seleção Brasileira, que conquistaria o tricampeonato na Copa do Mundo de 1970 no México, teve sua comissão técnica preenchida por oficiais militares e sofreu interferências diretas do presidente, o que culminou, por exemplo, na demissão do técnico João Saldanha, motivada pela sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e por sua recusa em aceitar imposições do governo nas convocações.
Saldanha, em março de 1970, véspera da Copa de 1970, ao ser questionado por um repórter sobre o pedido do general, que, assim como ele, era gaúcho e gremista, para convocar o atacante Dario, o Dadá Maravilha, do Atlético Mineiro, respondeu: “[...] nem eu escalo ministério, nem o presidente [Médici] escala time”.
Duas semanas depois de sua resposta, foi demitido da seleção e deu lugar a Zagallo, que, em poucos meses, conduziria “as feras do Saldanha” ao tricampeonato mundial. Contou com o auxílio de Cláudio Coutinho, um capitão do Exército que, ainda na década de 70, também se tornaria técnico da seleção.
As vitórias nos gramados passaram a ser embaladas por marchinhas oficiais, como "Pra Frente Brasil", e diretamente associadas ao chamado "Milagre Econômico", transformando o sucesso esportivo em legitimação política. Como ressaltava o sociólogo Roberto DaMatta (1982), temia-se que o povo lesse a excelência futebolística como um drinque e, embriagado por ele, nada fizesse para mudar o sistema opressor do país, configurando o esporte como um autêntico "ópio do povo".
O reflexo direto do autoritarismo governamental estendia-se à estrutura interna dos clubes de futebol brasileiros da época. O ambiente esportivo caracterizava-se por um modelo de gestão hierárquico, arcaico e extremamente paternalista. Os dirigentes operavam como figuras oligárquicas que se perpetuavam no poder durante décadas, tratando os atletas de maneira subalterna, retirando-lhes qualquer autonomia. Conforme apontava Adílson Monteiro Alves, "o jogador de futebol geralmente é visto por dois extremos: como uma criança, ou como bandido" (Montano, 2021). As relações de trabalho eram marcadas pela ausência de diálogo, pela obrigatoriedade das "concentrações" de vários dias em hotéis como forma de controle disciplinar rígido sobre a vida privada dos atletas, e pela total exclusão dos profissionais da bola nos processos decisórios da instituição.
A Democracia Corintiana
Foi justamente em resposta a essa estrutura engessada que, no início da década de 1980, emergiu no Sport Club Corinthians Paulista um movimento revolucionário.
O clube vivia uma aguda crise esportiva e institucional ao longo de 1981, tendo realizado a sua pior campanha na história do Campeonato Brasileiro, encerrando o torneio na 26ª colocação. O então presidente Vicente Matheus, que comandava o clube de forma centralizadora e ininterrupta desde 1972, tentou uma manobra estatutária nas eleições daquele ano: lançou seu vice, Waldemar Pires, à presidência para tentar governar o clube por trás dos bastidores como vice. Contudo, após ser eleito, Pires assumiu de fato sua autonomia e nomeou o sociólogo Adílson Monteiro Alves como seu diretor de futebol, que por sua vez trouxe Mário Travaglini para o comando técnico (Sócrates; Gozzi, 2002).
Adílson e Travaglini introduziram uma filosofia de "liberdade com responsabilidade", encontrando solo fértil em um elenco que já reunia figuras questionadoras e altamente politizadas, notadamente os jogadores Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zé Maria. Nasceu assim o que o jornalista Juca Kfouri conceituaria durante um debate acadêmico na PUC-SP (termo depois percebido e imortalizado pelo publicitário Washington Olivetto) de "Democracia Corintiana" (Kfouri, 2002).
A principal característica estrutural da Democracia Corintiana era a horizontalidade na gestão e a adoção da autogestão mediante o voto direto e igualitário. Conforme diz Sócrates:
A Democracia Corintiana estava rompendo a dinastia dos técnicos de futebol. [...] As pessoas não têm consciência, ou não tinham consciência na época, do que representava o termo. Nós tínhamos um sistema político totalmente diferenciado e estruturado. Todos nós participávamos das decisões e tínhamos voto unitário. Ou seja, ninguém era superior a ninguém. Todos iguais. (Sócrates; Gozzi, 2002, p. 143)
Praticamente tudo o que dizia respeito à coletividade do departamento de futebol passou a ser votado em roda: contratações de novos atletas, dispensas, horários de treinamento, locais de parada de ônibus nas viagens e, de forma emblemática, o fim da concentração obrigatória para os jogadores, que passaram a ser tratados como profissionais adultos e responsáveis. Outro avanço ímpar foi a divisão proporcional das rendas e premiações, os chamados "bichos", que englobou e beneficiou igualitariamente todos os membros da equipe, abarcando desde as grandes estrelas até os funcionários mais humildes, como roupeiros, massagistas e motoristas.
Os objetivos fundamentais do movimento ultrapassavam as quatro linhas do campo; eles buscavam emancipar o indivíduo-atleta, promover a conscientização cívica da classe e inserir o futebol ativamente no processo de redemocratização nacional que o país debatia. Ao adotar as decisões coletivas, os jogadores provaram à sociedade que a ruptura da estrutura opressora era não apenas possível, mas também que um sistema participativo e igualitário poderia gerar vitórias concretas. Nos gramados, impulsionada por um futebol técnico e coletivo, a equipe demonstrou a eficácia incontestável de seu modelo ao sagrar-se bicampeã do Campeonato Paulista consecutivamente em 1982 e 1983.
No aspecto macro, a importância da Democracia Corintiana para o cenário político do Brasil foi transformadora, pois o clube assumiu abertamente a sua face como um potente veículo de massas de contestação à ditadura.
Inovando também na área do marketing esportivo, o clube foi pioneiro em estampar mensagens sociais e políticas nos seus uniformes de jogo. Em novembro de 1982, às vésperas das primeiras eleições diretas para governadores dos estados desde a ruptura democrática de 1964, a equipe atuou com a frase "Dia 15 Vote" impressa nas costas das camisas.

Posteriormente, deparando-se com ameaças de censura institucionalizadas por ofícios do Conselho Nacional de Desportos (CND) - atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF) -, os jogadores contornavam as proibições entrando em campo carregando enormes faixas de tecido com os dizeres: "Ganhar ou perder, mas sempre com democracia".

O engajamento social máximo da Democracia Corintiana consolidou-se, de fato, durante a intensa e popular campanha das "Diretas Já" em 1984. Em um dos maiores comícios da história do Brasil, no Vale do Anhangabaú, na cidade de São Paulo, que aglomerou cerca de 1,5 milhão de cidadãos clamando pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira (cujo texto restabelecia as eleições diretas para a Presidência da República), o Doutor Sócrates tomou o microfone e prometeu publicamente à nação: "Se o Congresso Nacional não aprovar a emenda das diretas, eu saio do país" (Sócrates; Gozzi, 2002, p. 138).
Historicamente, a emenda sofreu derrota na votação parlamentar e, cumprindo fielmente sua promessa atrelada ao desencanto com a estagnação autoritária, Sócrates transferiu-se pouco depois para o futebol italiano (Fiorentina), o que desferiu um duro e irremediável golpe estrutural no movimento dentro do Parque São Jorge.
A experiência institucional da Democracia Corintiana encerrou-se formalmente ao final do Campeonato Paulista de 1984 e com as eleições do clube em abril de 1985, nas quais a chapa progressista encabeçada por Adílson Monteiro Alves foi derrotada nas urnas pela oposição conservadora de Roberto Pasqua, a qual apressou-se em desmantelar a autogestão e erradicar as inovações trabalhistas do vestiário.
Contudo, a grandeza de seu legado precisa continuar na memória dos/as brasileiros/as. A Democracia Corintiana subverteu inteiramente a teoria de que o esporte seria uma ferramenta meramente voltada à alienação social, convertendo-o em um forte terreno de enfrentamento contra a hegemonia ditatorial e o atraso trabalhista.
Para nós, professores de Educação Física, estudar passagens históricas como “A Resposta Histórica do Clube de Regatas Vasco da Gama”, em 1923, e a “Democracia Corintiana”, por exemplo, é compreender que os elementos da cultura corporal, dentro dela o futebol, são fenômenos indissociáveis da estrutura política e formadores centrais da cidadania brasileira.
Além disso, reforçamos nosso posicionamento: "Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça. DITADURA NUNCA MAIS!"
Referências:
DAMATTA, R. Universo do Futebol: Esporte e Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke,1982.
KFOURI, Juca. Apresentação. In.: SÓCRATES; GOZZI R. Democracia corinthiana: a utopia em jogo. São Paulo: Boitempo, 2012.
MONTANO, M. S. Democracia corinthiana: um movimento atemporal. Orientador: Eliana de Toledo. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) - Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Ciências Aplicadas, Limeira, SP: [s.n.], 2021.
SÓCRATES; GOZZI R. Democracia corinthiana: a utopia em jogo. São Paulo: Boitempo, 2012.



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