Conheça o livro: Metodologia do Ensino de Educação Física
- Gabriel Garcia Borges Cardoso

- há 3 dias
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Atualizado: há 2 dias
A obra "Metodologia do Ensino de Educação Física", elaborada pelo autodenominado Coletivo de Autores (Carmem Lúcia Soares, Celi Taffarel, Elizabeth Varjal, Lino Castellani Filho, Micheli Escobar e Valter Bracht), representa um marco de ruptura e reorientação epistemológica na área, consolidando-se como leitura basilar para a a Educação Física escolar crítica.
Publicado em 1992, a obra se coloca com o seguinte objetivo:
O presente texto trata de uma pedagogia emergente, que busca responder a determinados interesses de classe, denominada aqui de crítico-superadora (Coletivo de Autores, 2012, p. 27)
A partir de uma fundamentação no materialismo histórico-dialético, a obra converge com os pressupostos da Pedagogia Histórico-Crítica, propondo a Abordagem Crítico-Superadora. Defende-se, assim, um projeto político-pedagógico radical que redefine a Educação Física escolar, deslocando seu eixo da aptidão física para a cultura corporal como linguagem histórica, substituindo a adaptação social pela formação do sujeito histórico crítico e superando a fragmentação técnica por meio de um currículo integrado e dialético. A apropriação ativa e consciente do conhecimento é concebida como uma via inalienável para a emancipação humana.
A seguir, buscaremos sistematizar as principais categorias, conceitos e ideias apresentados na obra.
O Projeto Político-Pedagógico e a Luta de Hegemonias
O texto parte da premissa de que a educação, em uma sociedade de classes (como a brasileira), é permeada por conflitos antagônicos. A classe proprietária busca a manutenção do status quo e a preservação de seus privilégios por meio de uma hegemonia que dirige a sociedade política, intelectual e moralmente. Em contrapartida, a classe trabalhadora expressa seus interesses históricos na luta para tomar a direção da sociedade e construir uma hegemonia popular.
Nesse contexto, a escola não é neutra, e a pedagogia emerge como a reflexão teórica capaz de dar conta da conflitividade da prática social da educação. A abordagem crítico-superadora assume, assim, características específicas em sua reflexão pedagógica: ela é "diagnóstica, judicativa e teleológica".
É diagnóstica por ler a realidade; judicativa por julgá-la a partir de uma ética de classe; e teleológica por buscar uma direção transformadora. Todo professor deve ter clareza de qual projeto de sociedade e de homem ele persegue, orientando sua prática na sala de aula para a emancipação.
O Objeto de Estudo: Da Aptidão Física à Cultura Corporal
A obra empreende uma dura crítica à tradição biológica e militarista que historicamente subjugou a Educação Física escolar.
Na perspectiva tradicional, fundamentada no higienismo e no militarismo, buscava-se educar o "homem forte, ágil, apto, empreendedor", adaptando-o à sociedade capitalista e alienando-o de sua condição de sujeito histórico. Essa tradição consolidou uma identidade pedagógica calcada na hierarquia militar e, posteriormente, na pedagogia tecnicista, que inseriu na escola os princípios de produtividade e racionalidade do esporte de alto rendimento, configurando "(não o esporte da escola mas sim o esporte na escola)".
Em contraposição, o Coletivo de Autores propõe uma nova síntese que redefine ontológica e epistemologicamente a área:
a Educação Física é uma prática pedagógica que, no âmbito escolar, tematiza formas de atividades expressivas corporais como: jogo, esporte, dança, ginástica, formas estas que configuram uma área de conhecimento que podemos chamar de cultura corporal (Coletivo de Autores, 2012, p. 50)
A materialidade corpórea foi historicamente construída na relação do homem com a natureza e pelo trabalho. Desse modo, a expressão corporal é concebida como linguagem, um conhecimento universal e inesgotável que materializa a cultura e legitima a inserção da Educação Física em um currículo escolar ampliado e dialético.
O Trato com o Conhecimento e a Dinâmica Curricular
A concepção de currículo, adotada pelo Coletivo de Autores, rompe com a visão de grade fragmentada. O currículo escolar representa "o percurso do homem no seu processo de apreensão do conhecimento científico selecionado pela escola" (Coletivo de Autores, 2012, p. 28-29). O objeto do currículo é, em última instância, a própria reflexão do aluno, que deve apreender a realidade social para transformá-la.
Para que a formação do sujeito histórico crítico ocorra, a organização do conhecimento deve pautar-se pela lógica dialética (totalidade, movimento, mudança qualitativa e contradição), superando a lógica formal (fragmentação, linearidade, etapismo).
Neste sentido, a obra delineia princípios curriculares essenciais para o trato com o conhecimento:
Relevância social e contemporaneidade: O conteúdo deve oferecer subsídios para a compreensão dos determinantes sócio-históricos do aluno, vinculando-se aos debates contemporâneos e clássicos.
Confronto e contraposição de saberes: Exige-se o compartilhamento de significados construídos, partindo do saber popular (senso comum) em direção ao saber científico, permitindo ao aluno construir formas mais elaboradas de pensamento.
Simultaneidade, espiralidade e provisoriedade: Os conteúdos não são estanques ou dispostos em pré-requisitos rígidos. O conhecimento é construído de forma espiralada, com a incorporação progressiva de novas referências mentais, evidenciando seu caráter histórico e provisório.
Para operacionalizar essa apreensão, a obra estrutura o ensino em ciclos de escolarização, baseando-se na psicologia histórico-cultural (Vygotsky, Leontiev, Davydov): o ciclo de síncrese (organização da identificação dos dados da realidade); a iniciação à sistematização; a ampliação da sistematização; e o aprofundamento da sistematização.
Abordagem Metodológica dos Temas da Cultura Corporal
A apreensão do conhecimento da cultura corporal busca relacionar, de forma dialética, a "significação objetiva" (sentido socialmente construído, a intenção da sociedade) e o "sentido pessoal" (as motivações e a realidade da própria vida do aluno).
O ensino dos temas clássicos é profundamente ressignificado:
Esporte: Exige-se a desmitificação do esporte-espetáculo, desvelando os códigos do capital, a racionalização excludente e a mercantilização (o "trabalhador da bola"). O esporte na escola resgata valores de solidariedade, contrapondo-se à sobrepujança inerente ao esporte olímpico.
Jogo: Compreendido como uma atividade lúdica e invenção humana que atua como impulsionador do pensamento abstrato e das regras de convivência social, auxiliando a percepção da passagem do jogo para o trabalho.
Capoeira: É ensinada a partir de sua essência enquanto luta de emancipação do negro no Brasil escravocrata, impedindo que seja esvaziada de seus significados culturais e políticos sob a ótica da esportivização.
Ginástica e Dança: Rompe-se com a elitização e a biologização dos movimentos. A ginástica foca na experimentação, desequilíbrio e co-educação, enquanto a dança é vista como expressão representativa da vida e do trabalho, distanciando-se de reproduções acrobáticas desprovidas de sentido crítico.
A aula, nesta perspectiva, é vista como "um espaço intencionalmente organizado para possibilitar a direção da apreensão, pelo aluno, do conhecimento específico da Educação Física" (Coletivo de Autores, 2012, p. 86). A técnica corporal não é negada, mas é subsumida à intencionalidade do movimento humano e à compreensão de seus condicionantes históricos.
A Avaliação como Síntese Qualitativa e Emancipatória
Na educação fundamentada no materialismo histórico-dialético, a avaliação sofre um giro paradigmático. O Coletivo de Autores tece uma crítica mordaz ao paradigma docimológico clássico que transforma a avaliação em mero instrumento burocrático, classificador, meritocrático e punitivo, legitimando o fracasso das camadas populares.
Em contrapartida, postula-se que:
o sentido da avaliação do processo ensino-aprendizagem em Educação Física é o de fazer com que ela sirva de referência para a análise da aproximação ou distanciamento do eixo curricular que norteia o projeto pedagógico da escola (Coletivo de Autores, 2012, p. 101).
A avaliação crítico-superadora exige práticas produtivo-criativas e dialógicas, negando a busca incessante por "talentos esportivos" e questionando o princípio da performance atlética. A nota deixa de ser um fim para tornar-se uma "síntese qualitativa do processo de aprendizagem do aluno" (Coletivo de Autores, 2012, p. 103), superando a visão da avaliação como castigo. O próprio erro é reinterpretado, perdendo seu caráter punitivo para ser acolhido como elemento constitutivo essencial na estruturação dialética do salto qualitativo.
Em suma, a obra do Coletivo de Autores assenta a Educação Física em uma sólida base filosófico-metodológica omnilateral. Ao afirmar a primazia da cultura corporal e a urgência de uma pedagogia enraizada nas contradições da realidade material, fornece os instrumentos teóricos para que o estudante não apenas adapte-se ao mundo, mas o compreenda em suas múltiplas determinações para, fundamentalmente, transformá-lo.
Referências:
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de Educação Física. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2012.



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