top of page

"Cultura Física" na URSS: conceito, ideologia, debates políticos e a questão feminina (1917–1930)

há 11 horas
23 min de leitura

Atualizado: há 10 minutos

O que nos move?


Um dos motivos que o projeto Almanaque da Cultura Corporal é criado, como apresentamos no artigo "Almanaque da Cultura Corporal: o Instagram como ferramenta pedagógica e de divulgação científica no campo da Educação Física" (Cardoso, 2025, p. 6), é:

[...] o de ser uma extensão para divulgação dos nossos estudos, reflexões, pesquisas e planejamentos. As publicações variam entre apresentação de elementos que compõem a cultura corporal (esportes, danças, lutas, ginásticas, brincadeiras, jogos, jogos eletrônicos etc.) do Brasil e do mundo; divulgação de filmes, livros, artigos, eventos científicos e acadêmicos, podcasts, e outras redes sociais digitais que dialogam com a temática da página; reflexões e análise sobre temas preconceitos raciais e de gênero, por exemplo) e eventos que se aproximam da cultura corporal; e a apresentação dos pressupostos teóricos e metodológicos que são base para todas as produções e reflexões da página.

Assim, durante nossas pesquisas e leituras para compreensão do conceito de omnilateralidade e politecnia (objeto de estudo de nossa dissertação de mestrado em educação), chegamos às leituras sobre as abordagens pedagógicas responsáveis por sistematizar, no contexto pós-revolução de 1917, na União Soviética, teorias pedagógicas a partir das bases teórico-metodológicas do materialismo histórico-dialético.


Essas teorias, fundamentadas no marxismo, baseavam-se, de modo geral, em algumas definições de Marx sobre o modelo de educação voltada para classe trabalhadora. A primeira é o texto “Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório. As Diferentes Questões”, escrito por Marx em agosto de 1866, onde é apresentado um modelo de educação que une educação intelectual, educação física e instrução tecnológica:

Por educação entendemos três coisas: Primeiramente: Educação mental. Segundo: Educação física, tal como é dada em escolas de ginástica e pelo exercício militar. Terceiro: Instrução tecnológica, que transmite os princípios gerais de todos os processos de produção e, simultaneamente, inicia a criança e o jovem no uso prático e manejo dos instrumentos elementares de todos os ofícios. Um curso gradual e progressivo de instrução mental, gímnica e tecnológica deve corresponder à classificação dos trabalhadores jovens. Os custos das escolas tecnológicas deveriam ser em parte pagos pela venda dos seus produtos. A combinação de trabalho produtivo pago, educação mental, exercício físico e instrução politécnica elevará a classe operária bastante acima do nível das classes superior e média (Marx, 1982, grifo nosso).

Na segunda, presente na obra "O Capital", Marx apresenta o que para ele seria o germe da educação do futuro:

o germe da educação do futuro, que há de conjugar, para todas as crianças a partir de certa idade, o trabalho produtivo com o ensino e a ginástica, não só como forma de incrementar a produção social, mas como único método para a produção de seres humanos desenvolvidos em suas múltiplas dimensões (Marx, 2017, p. 553-554)

A partir dessas poucas definições sobre a educação feitas por Marx, pedagogos soviéticos como Nadezhda Krupskaya e Moisey Pistrak buscaram, no período pós-1917, estruturar teorias pedagógicas voltadas para a realidade da União Soviética, buscando idealizar uma educação politécnica e omnilateral, que integrasse, de forma ampla, os três pilares defendidos por Marx: educação intelectual, educação física e instrução tecnológica.


Mas como era a Educação Física na União Soviética pós-1917? Qual a relação entre os soviéticos e as práticas esportivas? São essas perguntas que, paralelamente à nossa pesquisa sobre as categorias de omnilateralidade e politecnia, buscamos, aqui, iniciar a reflexão. Nosso "rascunho" teórico é realizado a partir de quatro obras, localizadas a muito custo (e que estarão disponíveis para download, para que os leitores possam ler, por conta própria):



A partir disso, iniciamos nosso "rascunho" teórico. Rascunho pois são reflexões iniciais, sem a pretensão de encerrarmos o debate, movidos pela curiosidade que nos faz pesquisador da cultura corporal. Boa leitura!

1 Introdução


A Revolução Bolchevique de outubro de 1917 não visava apenas à reestruturação das bases econômicas e políticas do antigo Império Russo, mas almejava uma transformação cultural, social e humana profunda.


Diante de uma população predominantemente camponesa, empobrecida e assolada por epidemias, analfabetismo e hábitos considerados "atrasados", a liderança soviética compreendeu que a edificação do socialismo exigia a criação de uma nova forma de vida (byt) e a modelagem do "Novo Homem Soviético" (Novy Sovetsky Chelovek). Nesse projeto revolucionário, a "Cultura Física" (fizicheskaya kul'tura ou simplesmente fizkul'tura) emergiu não como um mero passatempo desinteressado ou uma atividade recreativa isolada, mas como um pilar central da engenharia social do Estado socialista (Grant, 2013; Riordan, 1977).


A historiografia do esporte soviético, destacadamente mapeada nas obras de James Riordan (1977; 1978) e Susan Grant (2010; 2013), demonstra que a fizkul'tura desempenhou funções multifacetadas nas décadas de 1920 e 1930. Ela articulou a promoção da saúde pública e da higiene social à preparação para o trabalho produtivo e para a defesa militar da pátria, servindo simultaneamente como um instrumento educativo e ideológico para afastar a juventude de vícios (álcool, fumo, religião) e moldar o comportamento cívico.


Cartaz soviético de 1929 intitulado "С буквой О — сила, с буквой И — могила" (Com a letra O - força, com a letra И - sepultura. Em russo, a palavra esporte e a palavra álcool se diferenciam por uma única letra: Спорт (sport - esporte) leva a letra О e simboliza сила (força); Спирт (spirt - álcool/álcool etílico) leva a letra И e simboliza могила (sepultura/tumba). No poster, uma criança sorridente com um lenço de pioneiro soviético aponta para o jogo de palavras, associando a prática saudável do esporte à vida e o consumo de álcool à destruição.
Cartaz soviético de 1929 intitulado "С буквой О — сила, с буквой И — могила" (Com a letra O - força, com a letra И - sepultura. Em russo, a palavra esporte e a palavra álcool se diferenciam por uma única letra: Спорт (sport - esporte) leva a letra О e simboliza сила (força); Спирт (spirt - álcool/álcool etílico) leva a letra И e simboliza могила (sepultura/tumba). No poster, uma criança sorridente com um lenço de pioneiro soviético aponta para o jogo de palavras, associando a prática saudável do esporte à vida e o consumo de álcool à destruição.

Contudo, longe de ter sido um sistema uniforme e homogêneo desde a sua gênese, a cultura física soviética foi palco de intensas controvérsias ideológicas, disputas administrativas entre órgãos estatais e contradições sociais profundas, especialmente no que se refere à participação feminina e à integração das minorias étnicas e rurais (Grant, 2010; 2013).


O presente "rascunho teórico" tem por objetivo iniciar os estudos sobre a emergência, o conceito, as características e a evolução da cultura física na União Soviética. A reflexão orienta-se por três eixos centrais: (a) o papel da cultura física e do esporte na modelagem da identidade do novo cidadão socialista; (b) os principais desafios e controvérsias político-ideológicas na organização da cultura física durante a década de 1920 (envolvendo higienistas, proletkultistas - cultura proletária -, órgãos de instrução militar e o Partido Comunista); e (c) a evolução e os dilemas da participação feminina sob as diretrizes do Estado soviético.


2 Definição, conceito e dimensões da Cultura Física Soviética (Fizkul'tura)


Para compreender a manifestação da cultura corporal no contexto soviético, torna-se necessário delimitar a distinção conceitual entre "esporte" (sport) e "cultura física" (fizkul'tura).


Na teoria social e pedagógica da União Soviética, o esporte e os jogos eram concebidos não como um fim em si mesmos, mas como elementos integrantes de uma categoria analítica e prática infinitamente mais ampla: a cultura física.


Conforme apresenta Riordan (1977, p. 3-4), para teóricos soviéticos como N. I. Ponomaryov e A. D. Novikov, a cultura física constituía uma parte indissociável da cultura geral da sociedade, inserida na "superestrutura" cultural que repousava sobre a base das relações de produção socialistas.


Historicamente, as práticas de lazer corporal na Rússia pré-revolucionária já exibiam divisões de classe marcantes: enquanto a aristocracia se dedicava à caça e ao iatismo, no final do século XIX surgiram sociedades esportivas amadoras urbanas impulsionadas por figuras como o Conde G. I. Ribop'er, o Dr. V. F. Kraevskii e o lutador I. V. Lebedev (Grant, 2013). Lebedev, em particular, popularizou o fisiculturismo e a imagem do "homem forte" camponês, influenciado pelo fenômeno europeu de Eugen Sandow. Essas primeiras iniciativas já manifestavam um desdém pela competição mercantilizada e promoviam um incipiente "culto ao corpo" que explodiu após a Revolução de 1905 (Grant, 2013).


No entanto, a conceituação soviética pós-1917 redefiniria drasticamente esse legado. Enquanto o termo "esporte" derivava de tradições ocidentais e burguesas, frequentemente associado à especialização precoce, ao profissionalismo, ao elitismo, à busca individualista por recordes (rekordsmenstvo) e ao espetáculo comercial para espectadores passivos; a fizkul'tura englobava um espectro multidimensional de práticas corporais e hábitos de vida. Ela articulava quatro componentes fundamentais: a educação física escolar e acadêmica organizada, os jogos recreativos e tradicionais (laptá, gorodkí), o lazer ativo ao ar livre (caminhadas, excursionismo) e o esporte orientado para a utilidade social (Riordan, 1977, p. 2-7).


Nikolai Semashko, Comissário do Povo para a Saúde da RSFSR e primeiro presidente do Conselho Superior de Cultura Física (VSFK), formulou o conceito clássico da fizkul'tura ao sintetizá-lo na célebre máxima: "Cultura física 24 horas por dia!" (Grant, 2013; Riordan, 1977, p. 73). Com essa frase, Semashko buscava demonstrar que a cultura física não se restringia à prática eventual de exercícios físicos ou à ginástica, mas configurava um verdadeiro modo de vida, uma atitude e um padrão de comportamento diário. O princípio das "24 horas" incorporava a organização racional da jornada do trabalhador (Riordan, 1977).


A cultura física assumiu, portanto, um caráter marcadamente preventivo e civilizador. Nos anos imediatamente posteriores à Guerra Civil (1918–1921), a prioridade do Estado soviético era combater as epidemias (como o tifo e a tuberculose) e a miséria que ameaçavam a integridade da força de trabalho e a capacidade defensiva do país (Grant, 2010, p. 33-36). Sob a liderança do Comissariado da Saúde (Narkomzdrav), a fizkul'tura tornou-se sinônimo de medicina preventiva e higiene social.


Pionês na Cabana Camponesa (1928): Ilustração de um jovem Pionês escovando os dentes dentro de uma casa camponesa enquanto familiares idosos o observam com curiosidade e receio, simbolizando o papel da juventude como vetor de higiene e modernização. (Grant, 2013, p. 169)
Pionês na Cabana Camponesa (1928): Ilustração de um jovem Pionês escovando os dentes dentro de uma casa camponesa enquanto familiares idosos o observam com curiosidade e receio, simbolizando o papel da juventude como vetor de higiene e modernização. (Grant, 2013, p. 169)

A premissa era a de que a saúde física do indivíduo determinava diretamente seu estado psicológico, emocional e sua produtividade laboral (Grant, 2013).


3 O "Novo Homem Soviético"


A fundamentação teórica da cultura física soviética ancorou-se no materialismo histórico-dialético de Marx e Engels, suplementado pelas interpretações de V. I. Lênin e pelas pesquisas neurofisiológicas de Ivan Pavlov e Pyotr Lesgaft (Riordan, 1977, p. 56-67). Contrapondo-se ao dualismo cartesiano ocidental - que historicamente separava e hierarquizava a mente (alma) sobre o corpo material -, a filosofia marxista-leninista postulava a unidade indissociável entre a existência física e a consciência psíquica do ser humano.


Escrito em 1862 por Nikolai Tchernichevski durante sua prisão na Fortaleza de Pedro e Paulo, "O Que Fazer?" foi publicado em 1863 e se tornou um dos textos mais influentes do pensamento radical russo do século XIX, marcando profundamente figuras como Lênin, Plekhanov, Kropotkin e Rosa Luxemburgo - e inspirando o título do tratado político de Lênin de 1902.
Escrito em 1862 por Nikolai Tchernichevski durante sua prisão na Fortaleza de Pedro e Paulo, "O Que Fazer?" foi publicado em 1863 e se tornou um dos textos mais influentes do pensamento radical russo do século XIX, marcando profundamente figuras como Lênin, Plekhanov, Kropotkin e Rosa Luxemburgo - e inspirando o título do tratado político de Lênin de 1902.

A figura do "Novo Homem Soviético" encontrou sua inspiração no personagem Rakhmetov, do romance do século XIX O que fazer?, de Nikolai Tchernichevski. Rakhmetov era retratado como um revolucionário de rigor ascético e disciplina inflexível, que submetia seu corpo a exercícios intensos e privações para cultivar uma força física e mental inabalável a serviço da causa revolucionária (Grant, 2010, p. 32-33).


Lênin, profundamente influenciado por essa visão, advogava que a juventude soviética necessitava de vitalidade, alegria de viver e disciplina corporal. Em suas conversas com Clara Zetkin e em discursos aos Komsomols, Lênin afirmava que o esporte saudável, a natação, a ginástica e as excursões deveriam combinar-se aos interesses intelectuais para afastar a juventude do alcoolismo, do fumo e de obsessões individuais, canalizando a energia emocional para a construção do socialismo (Riordan, 1977, p. 61-64).


3.1 A dimensão étnico-cacional: Korenizatsiya e a Cultura Física nas repúblicas periféricas

Embora a teoria da cultura física visasse à formação de um cidadão universal urbano, na prática a União Soviética constituía um mosaico pluriétnico e pluricultural imenso. Se na Rússia central o modelo do Novo Homem focava o proletariado industrial, nas repúblicas periféricas o projeto de aculturação enfrentou tradições feudais, rurais e religiosas profundamente enraizadas. Para integrar essas populações sem provocar revoltas abertas, o Estado soviético implementou na década de 1920 a política de korenizatsiya (indigenização, ou nativização), orientada pela premissa de Josef Stalin (Comissário do Povo para os Negócios das Nacionalidades - Narkomnats - desde a Revolução de Outubro de 1917 até 1923) de criar uma cultura "socialista no conteúdo, nacional na forma" (Riordan, 1977).


Nesse arcabouço, a cultura física atuou como um poderoso vetor de secularização, higiene e integração política. Em vez de simplesmente abolir as práticas corporais nativas, os órgãos de cultura física promoveram a assimilação e a regulamentação dos jogos populares e esportes folclóricos tradicionais - tais como os jogos de montaria e luta da Ásia Central (kyz-kuumui, oodarysh), a luta georgiana (chidaoba) e os jogos russos de arremesso (gorodkí, laptá) (Riordan, 1977, p. 306). Esses jogos foram codificados com regras científicas, despidos de rituais religiosos e integrados aos festivais regionais sob a supervisão de instrutores soviéticos.


Jovens camponeses praticando o jogo tradicional laptá na aldeia de Ignat'esya, distrito de Kadamskii, Ryazan. (Grant, 2013, p. 163)
Jovens camponeses praticando o jogo tradicional laptá na aldeia de Ignat'esya, distrito de Kadamskii, Ryazan. (Grant, 2013, p. 163)

Contudo, a implementação da fizkul'tura nas repúblicas não russas exigiu constantes negociações e ajustes culturais. A imposição de padrões urbanos de vestuário esportivo europeu (como calções curtos e regatas) encontrou forte resistência moral e religiosa em regiões islâmicas como o Uzbequistão e em áreas rurais da Geórgia (Adjara) (Grant, 2013). Para viabilizar a adesão, o Estado aceitou temporariamente adaptações nos trajes e na condução das atividades, demonstrando que a cultura física e a saúde pública nas periferias operavam como instrumentos sutilíssimos de pedagogia social, controle político e consolidação do poder centralizado (Grant, 2013).


3.2 Da prevenção à prontidão militar total

Com o avanço do Primeiro Plano Quinquenal (1928) e a deterioração do cenário geopolítico europeu, a concepção do Novo Homem Soviético sofreu uma reorientação pragmática e defensiva. A prioridade deslocou-se da prevenção médica e higiênica dos anos 1920 para a produtividade industrial acelerada e a prontidão militar militarizada perante a ameaça de agressão imperialista (Grant, 2013; Riordan, 1977). O cidadão soviético dos anos 1930 deveria ser não apenas limpo e alfabetizado, mas um trabalhador de choque (udarnik) e um soldado em potencial.


O marco fundamental dessa militarização foi o lançamento, em março de 1931, a partir de proposta do Komsomol, do programa nacional de aptidão física intitulado "Pronto para o Trabalho e a Defesa" (Gotov k Trudu i Oborone - GTO) (Riordan, 1977, p. 129). O complexo GTO estabeleceu uma bateria de testes padronizados dividida em escalões de idade para homens e mulheres. Longe de se limitar a provas atléticas convencionais (como corrida, natação e salto), o GTO exigia a demonstração direta de habilidades de utilidade militar e civil: arremesso de granada de mão, tiro de rifle de precisão, marcha de resistência com mochila, navegação por topografia, travessia de obstáculos e permanência prolongada com máscaras contra gases (Riordan, 1977, p. 129–130, 217–224).


Este é um famoso cartaz de propaganda soviética criado por Alexander Deineka (1933), focado na importância da saúde, do trabalho e do esporte para a construção da sociedade. A tradução do texto presente no cartaz é: "Trabalhar, construir e não reclamar! Para a nova vida o caminho nos foi indicado. Você pode não ser um atleta, mas um praticante de cultura física — você é obrigado."
Este é um famoso cartaz de propaganda soviética criado por Alexander Deineka (1933), focado na importância da saúde, do trabalho e do esporte para a construção da sociedade. A tradução do texto presente no cartaz é: "Trabalhar, construir e não reclamar! Para a nova vida o caminho nos foi indicado. Você pode não ser um atleta, mas um praticante de cultura física — você é obrigado."

A obtenção da insígnia metálica do GTO tornou-se um requisito moral e social para a juventude, conferindo enorme prestígio comunitário. O complexo GTO funcionou em simbiose com a sociedade paramilitar de voluntários Osoaviakhim (Sociedade de Auxílio à Defesa, Aviação e Indústria Química), transformando fábricas, universidades e fazendas coletivas (kolkhozes) em centros de treinamento defensivo (Riordan, 1977, p. 139; 159). Essa mobilização em massa criou a base atlética e técnica que permitiria à União Soviética recrutar e desdobrar atiradores de elite (snipers), esquiadores de combate e paraquedistas durante a Grande Guerra Patriótica (1941–1945) (Riordan, 1977).


4 Debates ideológicos e conflitos organizacionais na década de 1920


A consolidação do sistema soviético de cultura física não ocorreu sem intensas disputas teóricas e administrativas. Durante o período da Nova Política Econômica (NEP, 1921–1928), o campo da fizkul'tura caracterizou-se por um efervescente pluralismo de ideias e pela ausência de uma política estatal unificada (Grant, 2013; Riordan, 1977). Três correntes principais disputaram a hegemonia da organização do movimento corporal: os militaristas do Vsevobuch, a escola dos Higienistas e o movimento da Cultura Proletária (Proletkul't).


4.1 A organização do Vsevobuch e a necessidade defensiva

Logo após a Revolução, a responsabilidade primária pela cultura física foi atribuída ao Vsevobuch (Treinamento Militar Universal), liderado por N. I. Podvoisky (Riordan, 1977, p. 69-72). Sob a premência da Guerra Civil e da intervenção estrangeira, o Vsevobuch encarava o esporte e os exercícios corporais sob um prisma utilitário e pré-militar. Podvoisky defendia a utilização das atrações emocionais do esporte competitivo para atrair os jovens operários e camponeses às fileiras de treinamento, organizando as primeiras pré-olimpíadas pan-russas em 1920 (Riordan, 1977, p. 79-80). Contudo, a abordagem militarizada e o estímulo à competição aberta sofreram severas críticas de setores médicos e pedagógicos, que acusavam o Vsevobuch de deformar a essência da cultura física (Riordan, 1977).


4.2 A escola dos higienistas e a rejeição do "Esporte Burguês"

A corrente dos "Higienistas", composta por médicos, fisiologistas e anatomistas reunidos no Comitê Científico-Técnico do VSFK e no Instituto Estatal de Cultura Física de Moscou - sob a liderança do reitor A. A. Zikmund e do Dr. V. V. Gorinevsky -, exercia imensa influência sobre a imprensa e os currículos escolares na década de 1920 (Riordan, 1977, p. 95-101).


Os higienistas partiam de uma preocupação com os precários índices de saúde da população e argumentavam que o esporte competitivo comercializado no Ocidente induzia à "mania de recordes" (rekordsmenstvo), à especialização precoce e a lesões graves.


Em virtude dessa premissa, os higienistas condenavam e chegaram a proibir a prática de modalidades consideradas "nocivas" ou "irracionais", como o boxe, o futebol, o levantamento de peso e a ginástica de aparelhos (Riordan, 1977). Nos Jogos Sindicais de 1925, por exemplo, essas quatro modalidades foram excluídas do programa por pressão higienista. Em seu lugar, defendiam uma fizkul'tura baseada estritamente na calistenia, no uso das forças da natureza e em modalidades não antagônicas, como a natação e o remo "contra o relógio e não contra oponentes" (Riordan, 1977, p. 100). A. A. Zikmund chegou a declarar que a mera existência de instrutores de educação física isolados nas escolas era um sinal de "analfabetismo pedagógico", pois a higiene deveria permear todo o processo educativo (Riordan, 1977, p. 97). Embora Nikolai Semashko (Riordan, 1977, p. 101) apoiasse a supervisão médica ("Sem controle médico não pode haver cultura física soviética!"), ele divergia da perspectiva extrema do higienismo por compreender que restringir a população à "pudim de sêmola da ginástica higiênica" afastaria as massas do movimento (Riordan, 1977, p. 96).


4.3 O Proletkul't e a teatralização da Cultura Física

O movimento do Proletkul't (Cultura Proletária), liderados por teóricos como S. Sysoyev, entendia que era necessário rejeitar categoricamente todas as formas de esporte e jogos herdados da sociedade burguesa, considerados resquícios de uma cultura decadente e individualista (Riordan, 1977, p. 101-105). Jogos como o tênis de campo, por exemplo, eram estigmatizados como divertimentos para a "brigada das calças brancas e para a burguesia", desprovidos de espírito de camaradagem (Riordan, 1977, p. 103).


Em substituição ao esporte tradicional, o Proletkul't preconizava a "inovação revolucionária da cultura física proletária", manifestada por meio da "ginástica de produção" (exercícios aplicados aos movimentos do trabalho de fábrica) e de gigantescos espetáculos dramáticos e simulações de batalhas de massa ao ar livre (Riordan, 1977, p. 102-103). Exemplos emblemáticos dessas práticas foram a encenação realizada nos Montes Vorobyov, em Moscou, em 1924, intitulada Índios, Britânicos e Vermelhos (reunindo seis mil participantes), e o cortejo de 1927 em comemoração ao décimo aniversário da Revolução, intitulado O Espetáculo do Outubro Universal, reunindo sete mil atores para dramatizar a revolução mundial (Riordan, 1977).


O Proletkul't publicou também cartilhas como Novos Jogos para Novas Crianças, contendo brincadeiras doutrinárias como "Aumentando as Fileiras dos Grupos Comunistas Infantis", "Salvação dos Fascistas" e "Contrabando de Literatura Revolucionária pela Fronteira" (Riordan, 1977, p. 102).


4.4 Combate ao culturismo, ao individualismo e às práticas místicas

Paralelamente às controvérsias entre higienistas e proletkultistas, a teorização médica e política soviética manteve uma vigilância contra qualquer manifestação corporal considerada "alienante", "narcisista" ou vinculada ao idealismo filosófico ocidental ou oriental (Grant, 2013; Riordan, 1977).


Práticas como o fisiculturismo (culturismo), impulsionadas no início do século por Eugen Sandow e I. V. Lebedev, foram limitados. Os ideólogos soviéticos argumentavam que o culturismo promovia a vaidade individual, o exibicionismo narcisista e o desenvolvimento muscular unilateral e estético desprovido de função social ou motora útil, em oposição direta à ginástica atlética coletiva e funcional (Grant, 2013; Riordan, 1977).


O esporte aceitável deveria ser coletivo, científico, transparente e diretamente voltado para o fortalecimento do organismo e para a coesão do grupo operário.


4.5 A resolução do partido de 1925 e a virada pragmática

A paralisia causada pelas disputas doutrinárias e a baixa adesão dos operários às formas abstratas de ginástica higiênica exigiram a intervenção direta do Partido Comunista. Assim, em 13 de julho de 1925, o Comitê Central aprovou uma resolução histórica sobre a cultura física, que redirecionou os rumos do esporte soviético (Riordan, 1977, p. 105-109). A resolução rejeitava tanto o elitismo comercial burguês, quanto o dogmatismo dos higienistas e proletkultistas.


O Partido reconheceu que o esporte competitivo continha um valor atrativo indispensável para mobilizar as massas, servindo como a "porta de entrada" para a educação política, a saúde e a coesão social (Riordan, 1977).


A resolução de 1925 estabeleceu que a fizkul'tura deveria combinar a higiene pública e privada, o uso dos elementos naturais, o regime correto de trabalho e repouso, e a prática regulada de jogos e esportes competitivos. Esse documento assentou as bases para a gradual superação das controvérsias dos anos 1920 e para a centralização estatal do movimento esportivo, culminando na criação de uma estrutura hierarquizada que integraria a participação de massa (massovost) à busca pela excelência esportiva (masterstvo) nas décadas seguintes (Riordan, 1977).


5 A consolidação nos anos 1930: entre a performance de elite e a repressão estatal


A pacificação das controvérsias ideológicas da década de 1920 deu lugar, durante o período stalinista dos anos 1930, a uma nova tensão estrutural no seio do sistema soviético: a coexistência entre a necessidade de envolver toda a população em práticas corporais de massa (massovost') e o culto emergente à alta performance, ao recorde e à maestria atlética de elite (masterstvo) (Grant, 2013; Riordan, 1977).


Cidade infantil. Círculo de educação física, 1932. Autor: Michael Smodor.
Cidade infantil. Círculo de educação física, 1932. Autor: Michael Smodor.

Com a aceleração da industrialização e a emergência do movimento Stakhanovista a partir de 1935, a lógica da superação de cotas na fábrica transbordou diretamente para o campo esportivo. Atletas de alta performance passaram a ser celebrados na imprensa como "trabalhadores de choque do esporte" (udarniki) e "mestres engenheiros do corpo" (Grant, 2013; Grant, 2010). Em 1934 e 1935, o Estado institucionalizou essa estratificação ao criar o Sistema Uniforme de Classificação Esportiva de Toda a União (EshSK), outorgando títulos hierárquicos como "Mestre de Esportes da URSS" e concedendo condecorações estatais de altíssimo nível (como a Ordem de Lênin e a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho) a campeões nacionais (Riordan, 1977, p. 128-131).


Essa elite esportiva recebia privilégios materiais significativos - como salários indiretos através de empregos fictícios em sindicatos ou órgãos de segurança (Dinamo e Spartak), acesso a sanatórios exclusivos, melhores alojamentos e alimentação reforçada -, o que minava o antigo discurso igualitário (Riordan, 1977).


Desfile físico na Praça Vermelha. Desempenho de meninas com bandeiras. Data do registro: 1935.
Desfile físico na Praça Vermelha. Desempenho de meninas com bandeiras. Data do registro: 1935.

Simultaneamente, o regime stalinista transformou as grandes Paradas de Cultura Física na Praça Vermelha e no recém-inaugurado Parque Gorki ("a fábrica do novo homem") em vitrines cênicas espetaculares. Sob o famoso lema de Stalin em 1935 - "A vida se tornou melhor, camaradas; a vida se tornou mais alegre!" -, milhares de jovens atletas rigorosamente selecionados, bronzeados, esbeltos e musculosos desfilavam em formações complexas para projetar a imagem de uma sociedade socialista próspera, saudável e perfeitamente harmoniosa (Grant, 2013; Grant, 2010).


A representação plástica da cultura física atingiu seu ápice nas artes visuais soviéticas entre meados das décadas de 1920 e 1930, período em que a linguagem artística foi convocada a materializar a pedagogia do "Novo Homem". Artistas proeminentes como Alexander Samokhvalov e Alexander Deineka vislumbraram nos atletas o protótipo do cidadão socialista, cujos corpos aperfeiçoados e disciplinados refletiam o fortalecimento do espírito revolucionário.


Samokhvalov A.N., At the Stadium (1934-1935). Disponível em: https://rusmuseumvrm.ru/data/collections/painting/19_20/zhb-1723/index.php?lang=en; Deineka A. A., Race (Variant of the painting of the same name - 1930, Galleria d’Arte Moderna di Ca’Pesaro, Venice. 1932–1933). Disponível em: https://rusmuseumvrm.ru/data/collections/painting/19_20/zh-7741/index.php?lang=en


Para Samokhvalov, a prática esportiva constituía uma "alegria existencial" indispensável na luta pela edificação de uma nova vida e no cultivo da fraternidade humana, traduzindo-se em composições de fôlego monumental nas quais os esportistas corporificavam a vitalidade e o dinamismo do novo tempo. Por sua vez, a obra de Deineka capturou a vibração das novas formas da vida pública - articulando trabalho, indústria e esporte - por meio de uma linguagem plástica austera, de tons lacônicos e estrutura composicional marcadamente rítmico-montagística.


5.1 O grande terror e os expurgos stalinistas no sistema esportivo (1937–1938)

Entretanto, por trás da fachada festiva e monumental das paradas da Praça Vermelha, o aparelho esportivo e pedagógico soviético foi profundamente abalado pela sangrenta onda de repressão política conhecida como o Grande Terror (Yezhovshchina) entre 1937 e 1938 (Grant, 2013; Riordan, 1977).


A paranoia stalinista contra supostos "inimigos do povo", "espiões fascistas" e "sabotadores trotskyistas" atingiu em cheio os quadros dirigentes do Conselho Superior de Cultura Física (VSFK), os reitores de institutos de educação física, os líderes de sociedades esportivas voluntárias e eminentes médicos higienistas. Pessoas centrais na construção da fizkul'tura nos anos 1920 foram presas, julgadas sumariamente e executadas ou enviadas para os campos de trabalho forçado do Gulag. Entre as vítimas notáveis dos expurgos (chistki) estiveram A. A. Zikmund (ex-reitor do Instituto de Cultura Física de Moscou), S. M. Frumin, N. I. Podvoisky (afastado e marginalizado), além de altos administradores como Antipov, Kharchenko, Ittin e Mekhonoshin (Riordan, 1977, p. 123-124).


As acusações beiravam o absurdo: administradores esportivos eram acusados de estarem deliberadamente "destruindo os cartões de registro de normas do GTO" para enfraquecer a capacidade defensiva do país ou de introduzirem "desvios burgueses e sabotagens" na confecção de materiais esportivos (Riordan, 1977). Esses expurgos devastaram a continuidade administrativa do sistema e geraram um clima de terror entre instrutores e atletas. A consequência direta do expurgo dos quadros civis foi o aumento avassalador do controle do sistema esportivo pelas forças de segurança interna e militar, consolidando a tutela do NKVD (através da Sociedade Esportiva Dinamo) e do Exército Vermelho (através do CSKA) sobre o esporte soviético (Riordan, 1977, p. 292-295).


6 A participação feminina na Cultura Física Soviética: diretrizes, evolução e contradições


Um dos eixos mais complexos do projeto de transformação cultural soviético diz respeito à emancipação da mulher por meio da fizkul'tura. Logo após a revolução, a igualdade de direitos entre os sexos foi proclamada por decreto, e a cultura física foi alçada à condição de um dos instrumento privilegiados para libertar a mulher da servidão doméstica secular, da religiosidade tradicional e do analfabetismo ( Riordan, 1977).


Atuação de um grupo de ginastas, 1936, em desfiles de educação física, na Praça Vermelha.
Atuação de um grupo de ginastas, 1936, em desfiles de educação física, na Praça Vermelha.

A promoção do corpo feminino saudável articulava-se diretamente à necessidade de preparar as mulheres para a integração na força de trabalho industrial e para a função social da maternidade consciente (Grant, 2013).


6.1 Discurso oficial, propaganda e conscientização

Organizações como a Seção Feminina do Partido (Zhenotdel) e a Liga da Juventude Comunista (Komsomol) utilizaram jornais (Rabotnitsa, Krest'yanka), cartazes e a literatura popular - destacadamente as chastushki (canções/poemas populares) - para incitar as mulheres a ingressarem nos círculos de cultura física (kruzhki) (Grant, 2013). As chastushki retratavam a mulher que praticava fizkul'tura como uma cidadã esclarecida, que abandonava a "escuridão", o fumo, a bebida e as orações na igreja para desenvolver musculatura no clube da fábrica, tornando-se mais forte para o trabalho e apta para a vida comunitária (Grant, 2013).


O impacto do discurso emancipatório na Ásia Central e em regiões de maioria muçulmana (como Uzbequistão, Cazaquistão e Azerbaijão) assumiu contornos revolucionários. Nesses locais, a adesão feminina ao esporte envolvia a retirada do véu (paranja), a exposição dos membros e a quebra direta do isolamento feudal do patriarcado (Riordan, 1977; 1978). As primeiras atletas muçulmanas eram celebradas na imprensa como verdadeiras "heroínas" que enfrentavam o preconceito religioso e familiar em nome do progresso social (Riordan, 1978).


Enquanto isso, relatos de atletas como a campeã de salto ornamental N. Slivina e a operária Kadnova (da fábrica Kauchuk) atestavam que a prática regular da fizkul'tura proporcionava sentimentos reais de autoconfiança, melhoria da saúde física e ascensão social, transformando-as em modelos exemplares da "nova cultura" (Grant, 2010, p. 36).


6.2 Barreiras estruturais, preconceitos e realidade do cotidiano

Apesar do tom triunfalista da propaganda, a historiografia revela um abismo profundo entre as diretrizes oficiais e o cotidiano das mulheres trabalhadoras. Na prática, a participação feminina enfrentou fortes barreiras sociais, culturais e institucionais. Em 1924, as mulheres representavam apenas 33% dos participantes registrados na fizkul'tura (Grant, 2013).


Estudos de caso conduzidos em centros industriais têxteis, como a cidade de Ivanovo - onde a grande maioria dos trabalhadores das fábricas era composta por mulheres -, ilustram as dificuldades reais enfrentadas pelas operárias (Grant, 2013). Na fábrica Melanzh, em Ivanovo, dos 12.000 funcionários (dos quais 10.000 eram mulheres), apenas 100 participavam das atividades de cultura física, e em 1935 apenas duas mulheres conseguiram obter a insígnia do GTO (Grant, 2013).


Entre os principais obstáculos relatados pelas próprias trabalhadoras destacavam-se:

  1. Atitude e conduta dos instrutores masculinos: A escassez de instrutoras qualificadas fazia com que a maioria das turmas fosse dirigida por homens. Relatos de época denunciam que instrutores agiam com desrespeito e assédio, realizando medições de forma constrangedora e exibicionista, o que afastava as mulheres das sessões (Grant, 2013).

  2. Estigma social e preconceito moral: Fora do ambiente fabril, as mulheres que usavam calções e camisetas de ginástica eram rotuladas pejorativamente como "desavergonhadas" (besstydnitsa) ou "vagabundas" por senhorias de alojamentos, familiares e até por colegas de trabalho do sexo feminino. Um caso emblemático em Ivanovo foi o da operária Liuba Naboishchikova, que ao lesionar a perna no esporte foi acusada por suas colegas de "fingir lesão" e insultada publicamente (Grant, 2013).

  3. A dupla jornada de trabalho: Ao contrário dos homens, as mulheres soviéticas continuavam sobrecarregadas com o trabalho doméstico e os cuidados com os filhos após a jornada na fábrica, restando-lhes pouquíssimo tempo livre para o lazer ou o exercício (Grant, 2013; Riordan, 1977).

  4. Regras de cotas excludentes: Nas Spartakiadas fabris, exigia-se que a participação ocorresse por equipes compostas por cotas de homens e mulheres. Em indústrias predominantemente femininas (como a têxtil), a impossibilidade de preencher as cotas masculinas levava à desqualificação de equipes inteiras de mulheres, excluindo-as das competições de massa (Grant, 2013).


6.3 Normatização estatal das modalidades e o conceito de feminilidade

A evolução da cultura física feminina esteve permanentemente sujeita às definições estatais sobre a saúde reprodutiva e os padrões biológicos. A medicina soviética apoiava entusiasticamente a prática de esportes que desenvolvessem a graciosidade, a flexibilidade, a coordenação e a velocidade - tais como a ginástica artística e rítmica, a natação, a patinação artística, o atletismo e o esqui (Riordan, 1977). Essas modalidades eram vistas como perfeitamente compatíveis com a fisiologia feminina e a maternidade.


Por outro lado, o Estado consolidou uma duradoura vigilância em relação a modalidades consideradas "antinaturais" ou prejudiciais ao organismo feminino - preceito formulado pioneiramente pelos médicos e higienistas nos anos 1920 e 1930 que permaneceu como diretriz doutrinária por várias décadas. A persistência dessa matriz médica no longo prazo evidenciou-se de forma exemplar décadas depois, já no período da governança de Leonid Brejnev: em janeiro de 1973, uma resolução do Comitê de Esportes da URSS determinou o fechamento oficial de todas as seções de futebol feminino, luta desarmada (sambo), fisiculturismo, caratê e ioga (Riordan, 1977; 1978). Os laudos e pareceres oficiais daquele período reativavam os mesmos argumentos biologizantes das primeiras décadas soviéticas, alegando que tais práticas sobrecarregavam perigosamente a fisiologia reprodutiva (com riscos de varizes, tromboflebites e distúrbios geniturinários), além de degradarem moralmente a imagem da trabalhadora ao converter lutas e jogos em espetáculos voyeuristas para o público masculino (Riordan, 1977; 1978).


6.4 A contradição entre o sucesso olímpico e a ausência no poder

A partir da década de 1950, a participação das atletas soviéticas nas Olimpíadas e campeonatos internacionais tornou-se a grande vitrine propagandística da URSS no exterior. Foi o desempenho espetacular das mulheres nas provas de atletismo e ginástica que garantiu ao bloco soviético a hegemonia no quadro de medalhas sobre os Estados Unidos, levando observadores ocidentais a aclamarem a suposta igualdade plena alcançada pelas mulheres na sociedade soviética (Riordan, 1977).


Entretanto, segundo Riordan (1977), esse prestígio internacional contrastava fortemente com a estrutura de poder interna. Apesar de constituírem a força motriz das medalhas olímpicas, as mulheres continuavam marginalizadas dos cargos de liderança no sistema esportivo e político. Como aponta Riordan (1977), ao longo de toda a história da administração esportiva soviética, existiu apenas uma mulher a ocupar a presidência do Comitê de Toda a União para Assuntos de Cultura Física e Esporte: Elena L'vovna Knopova. Nomeada interinamente em agosto de 1937 após a prisão e execução de Ivan Kharchenko no auge da Yezhovshchina, Knopova permaneceu no cargo por breves três meses até ser destituída em outubro do mesmo ano - vindo, ela própria, a ser tragada pelo terror stalinista e encarcerada no Gulag (Grant, 2013; Riordan, 1977). A trajetória dramática de Knopova sintetizava a própria disparidade estrutural da nomenklatura do Partido Comunista e dos aparelhos estatais, onde o protagonismo atlético das mulheres nas pistas e ginásios nunca se traduziu em partilha equitativa do poder decisório, mantendo a liderança burocrática esportiva como um reduto quase exclusivamente masculino (Riordan, 1977).


7 Considerações muito iniciais sobre o assunto


A trajetória da cultura física na União Soviética entre as décadas de 1920 e 1930 revela um dos experimentos mais ambiciosos de transformação cultural e corporal da história contemporânea. Longe de se limitar a uma política de entretenimento popular, a fizkul'tura configurou-se como uma matriz de aculturação, disciplina e trasnformação social destinada a construir um cidadão fisicamente robusto, mentalmente disciplinado, ideologicamente consciente e produtivo para o trabalho e para a defesa.


A análise histórica demonstra que a cultura física soviética não foi um bloco uniforme, mas um campo em constante metamorfose e disputa. Durante a década de 1920, ela foi moldada por debates entre correntes utópicas, higienistas e militares, até alcançar uma síntese pragmática com a Resolução de 1925, que acolheu o esporte competitivo sob o controle do Estado.


Na década de 1930, sob o regime stalinista, o sistema consolidou-se em torno do complexo militar de aptidão GTO, da espetacularização das Paradas de Cultura Física e da emergência da estratificação esportiva de elite (masterstvo), em simbiose com o Stakhanovismo industrial. Contudo, essa mesma década foi marcada pelo impacto estarrecedor do Grande Terror de 1937–1938, cujos expurgos dizimaram a liderança intelectual e médica do esporte, submetendo o sistema ao rígido controle dos órgãos de segurança interna (Dinamo) e militares (CSKA).


No que se refere à questão feminina, a fizkul'tura atuou como um vetor inegável de emancipação e visibilidade social, rompedor de estruturas patriarcais - sobretudo nas regiões rurais e muçulmanas. Contudo, essa emancipação esteve permeada por profundas ambiguidades: a persistência do preconceito cotidiano, os abusos nas estruturas de treinamento, o fardo insuperável da dupla jornada doméstica e as restrições estatais impostas a certas modalidades demonstraram que o ideal do "Novo Homem e da Nova Mulher Soviética" permaneceu, em grande medida, uma construção ideológica que conviveu com as contradições do cotidiano socialista.


Referências

GRANT, Susan. Physical Culture and Sport in Soviet Society: Propaganda, Acculturation, and Transformation in the 1920s and 1930s. London/New York: Routledge, 2013.


GRANT, Susan. Bolsheviks, Revolution and Physical Culture. In.: NAURIGHT, John; WIGGINS, David Kenneth (Org.). Sport and Revolutionaries: Reclaiming the Historical Role of Sport in Social and Political Activism. London/New York: Routledge, 2010.


MARX, Karl. Instruções para os Delegados do Conselho Geral Provisório. As Diferentes Questões In.: Obras Escolhidas em três tomos. Traduzido do inglês por José BARATA-MOURA. Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1866/08/instrucoes.htm . Acesso em: 27 jun. 2026.


MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política: livro I: o processo de produção do capital. Tradução: Rubens Enderle. 2.ed. São Paulo: Boitempo, 2017.


RIORDAN, James. Sport in Soviet Society: Development of Sport and Physical Education in Russia and USSR. Cambridge: Cambridge University Press, 1977.


RIORDAN, James. The U.S.S.R. In.: RIORDAN, James (Org.). Sport under Communism: The USSR, Czechoslovakia, The GDR, China, Cuba. London: Frances Pinter Publishers, 1978.

Comentários


Se inscreva para receber atualizações

Almanaque da Cultura Corporal

O seu site sobre a cultura corporal

​

  • Instagram
  • X
  • Linkedin

Almanaque da Cultura Corporal

Gerenciada por Gabriel Garcia Borges Cardoso

bottom of page