Vaquejada
- Gabriel Garcia Borges Cardoso

- há 21 horas
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A vaquejada, amplamente reconhecida como uma expressão fundamental da cultura nordestina brasileira, tem suas raízes profundamente atreladas à dinâmica econômica da pecuária e à colonização do Brasil Colônia. Estima-se que essa tradição tenha surgido entre os séculos XVII e XVIII, acompanhando a interiorização do gado para a região do sertão, uma vez que a criação bovina se tornou incompatível com as faixas de terras litorâneas dedicadas à monocultura da cana-de-açúcar (Agência Senado; Chaves, 2023; Lima; Trindade; Campos, 2025).
No contexto das grandes fazendas e sesmarias do passado, os rebanhos eram criados soltos nas vastas extensões da caatinga e do cerrado, pois as propriedades rurais geralmente não possuíam cercas delimitadoras. Em decorrência desse modelo extensivo, ao final das estações chuvosas (comumente nos meses de junho ou julho), os fazendeiros precisavam organizar as chamadas "festas de apartação" (Chaves, 2023; Silva et al., 2019).
As festas de apartação constituíam o período prático em que os vaqueiros eram reunidos para localizar, recolher e separar as boiadas espalhadas pelas brenhas da mata, a fim de que os animais fossem marcados (procedimento conhecido como ferrar) ou comercializados (Chaves, 2023; Silva et al., 2019).
Grande parte desses bois, por se reproduzirem e viverem de forma livre com pouquíssimo contato humano, adquiriam um comportamento muito arisco e selvagem, o que exigia extrema coragem e uma elevadíssima habilidade técnica dos cavaleiros para capturá-los (Chaves, 2023; Lima; Trindade; Campos, 2025).
Desse esforço físico e laboral nasceram táticas como as "pegadas de boi no mato" e as "corridas de mourão", eventos nos quais os vaqueiros mais hábeis começaram a se desafiar em demonstrações de destreza perante os donos das fazendas. O boi que fugia e não obedecia ao comando era impiedosamente perseguido pelo homem montado a cavalo e derrubado pela cauda, consolidando assim a mecânica fundamental do que viria a ser o esporte (Agência Senado; Lima; Trindade; Campos, 2025; Silva et al., 2019).
No núcleo dessa estrutura histórica encontra-se, indiscutivelmente, a figura do vaqueiro, que não apenas exerceu papel basilar na economia do sertão, mas forjou ao seu redor uma rica identidade cultural (Chaves, 2023; Lima; Trindade; Campos, 2025).
Traje do vaqueiro nordestino

A dura lida impunha ao trabalhador rural a constante necessidade de enfrentar a vegetação hostil e os galhos secos e repletos de espinhos da caatinga. Por essa razão de sobrevivência, desenvolveu-se uma indumentária protetora à base de couro (muitas vezes compreendida como a armadura do sertanejo) que inclui o característico gibão, chapéu de mateiro, guarda-peito, luvas e perneiras.
Outro traço simbólico de grande importância na comunicação para o manejo do rebanho é o "aboio", um canto de trabalho melancólico e ritmado, podendo ser com ou sem versos, utilizado historicamente para acalmar e guiar os bovinos pelas pastagens, e que se mantém vivo nas festividades atuais (Chaves, 2023; Silva et al., 2019).
Com o avanço do século XX, a prática da vaquejada transpôs os limites privados das fazendas e perdeu seu caráter puramente laboral, convertendo-se de maneira definitiva em um esporte e em um espetáculo de massas nas cidades nordestinas (Chaves, 2023; Silva et al., 2019).
A Associação Brasileira de Vaquejada (ABVAQ) divide essa evolução temporal em distintos estágios:
de 1880 a 1910 predominavam as festas pequenas nos pátios rurais;
de 1920 a 1950, as corridas de pé-de-mourão foram se popularizando através de apostas;
e, entre as décadas de 1970 e 1980, surgiu de fato a competição oficial com as faixas de marcação de seis e depois dez metros.
A partir da década de 1990, o evento passou por um processo de mercantilização, estruturando-se em mega-parques de vaquejada fechados, que hoje comportam arquibancadas, praças de alimentação, shows de atrações musicais e a distribuição de fortunas em prêmios aos ganhadores (Lima; Trindade; Campos, 2025; Silva et al., 2019).
Hoje, a vaquejada moderna movimenta uma grande cadeia socioeconômica na região Nordeste, gerando mais de 600 mil empregos indiretos, o que abrange desde o trabalhador de comércio e locutores até grandes empresários da indústria agropecuária, têxtil e de couro (Lima; Trindade; Campos, 2025).
Enquanto esporte altamente estruturado, a vaquejada atual é disputada em pistas arenosas cujo tamanho recomendado pelas associações varia entre 150 a 160 metros de extensão. Os competidores adentram a arena sempre organizados em duplas, formadas pelos respectivos papéis de "batedor de esteira" (comumente chamado apenas de esteira) e de "puxador" (Chaves, 2023; Silva et al., 2019).
Ao sinal da abertura da porteira onde repousa o boi, o vaqueiro esteira tem a função estratégica de emparelhar e direcionar o animal em disparada, pegando a sua cauda com agilidade para entregá-la diretamente às mãos do puxador. O puxador, após firmar a mão e dar um giro anatômico na cauda do animal, é o responsável final por efetuar a técnica de derrubada.
Para que a pontuação seja integralmente validada pelo locutor e pelo juiz de prova (momento glorioso em que se declara "valeu o boi"), o animal precisa ser desequilibrado e cair estritamente na zona demarcada entre duas grossas faixas de cal dispostas no chão, e precisa tombar de forma que as quatro patas fiquem expostas para cima, sem violar os limites pintados.
Se a queda acontecer fora dessa exigência milimétrica, a pontuação do vaqueiro é anulada, recebendo popularmente a denominação de "zero". Com a profissionalização latente, a modalidade também englobou novas classes, separando os cavaleiros entre os níveis aspirante, amador e profissional, além do incremento recente das divisões feminina e mirim. É importante ressaltar que, na configuração moderna, para amortecer as puxadas, a cauda original do boi frequentemente passa a ser envolta em um equipamento protetor (rabo artificial) com o objetivo de evitar sofrimento físico aos tecidos do animal (Chaves, 2023).
Contudo, a visibilidade e o agigantamento do evento desencadearam fortes debates sociopolíticos, além de embates no próprio Supremo Tribunal Federal (STF), todos centrados na tensão legal entre o amparo de preservação de um patrimônio cultural e a defesa ética do bem-estar animal (Agência Senado; Lima; Trindade; Campos, 2025).
Órgãos de fiscalização e grupos civis amparam-se primordialmente no artigo 225 da Constituição Federal, bem como na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), para argumentar e reprimir a submissão dos animais a atividades de crueldade e maus-tratos (Lima; Trindade; Campos, 2025).
Visando equilibrar as exigências da civilidade e a manutenção cultural dessa identidade imaterial, as regulamentações desportivas modernas introduziram rigorosos regimentos internos em benefício aos animais, a exemplo basilar da instituição permanente do "Juiz de Bem-Estar Animal" dentro dos regulamentos da ABVAQ (Lima; Trindade; Campos, 2025).
Esse profissional (sendo imperiosamente um médico veterinário ou zootecnista) detém a mais absoluta autoridade técnica na competição esportiva, gozando de competência direta para desclassificar sumariamente vaqueiros agressivos e determinar interrupções das provas caso detecte atitudes que infrinjam a dignidade biológica de bovinos e equinos (Lima; Trindade; Campos, 2025).
Essas reformas estruturais e comportamentais têm sido decisivas para chancelar as garantias de funcionamento de tais festejos e sua ratificação social, sendo tal manifestação declarada oficialmente pela Emenda Constitucional nº 96/2017 e pela Lei nº 13.364/2016 como integrantes essenciais do Patrimônio Cultural e Imaterial do país (Lima; Trindade; Campos, 2025).
Referências:
AGÊNCIA SENADO. Da Redação. Prática surgiu no Nordeste entre os séculos 17 e 18. Agência Senado, Brasília, 1 nov. 2016.
ARAÚJO, Alceu Maynard. Brasil: histórias, costumes e lendas. Ilustração de José Lanzelloti. São Paulo: Editora Três, 2000.
CHAVES, Raimundo Gonçalves. A vaquejada como patrimônio cultural: um estudo de caso sobre Fortuna/MA. 2023. 55 f. Monografia (Licenciatura em Ciências Humanas/História) – Universidade Federal do Maranhão, Codó, 2023 (p. 1-2).
LIMA, Pedro Paulo Monteiro de; TRINDADE, Hermanny Clean Santana; CAMPOS, Lucas Cruz. A vaquejada como patrimônio cultural imaterial: a defesa da cultura na perspectiva da Constituição Federal. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação — REASE, v. 11, n. 6, p. 1535-1549, 2025. DOI: doi.org/10.51891/rease.v11i6.19707.
SILVA, Jose Mateus Carvalho; SANTOS, Jaiana Tavares dos; SOUZA, Suely Maria dos Santos; SILVA, Larisse Alves da; ROCHA, Ariza Maria. A vaquejada caririense: esporte, cultura e cidadania. In: VI ENCONTRO INTERNACIONAL DE JOVENS INVESTIGADORES (JOIN). Anais... [S.l.: s.n., 2019].




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