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Mazurca

há 31 minutos
9 min de leitura

No cenário das manifestações da cultura corporal do Brasil, a Mazurca (frequentemente denominadas pelas comunidades populares como "Mazuca") constitui uma rica síntese de memória, musicalidade e gesto coreográfico. Longe de se restringir a um único formato, a Mazurca brasileira manifestou-se tanto nos elegantes salões urbanos do século XIX (traços da herança europeia) quanto nos territórios rurais, quilombolas e de tradição oral, adquirindo contornos e significados profundamente ligados ao contexto sociohistórico de seus praticantes.


No Agreste do estado de Pernambuco, a Mazurca consolidou-se como uma expressiva dança de roda comunitária. Duas comunidades destacam-se como polos emblemáticos dessa tradição: o bairro rural do Alto do Moura, no município de Caruaru, e a comunidade quilombola de Mondé dos Cabrais, localizada em Camocim de São Félix.



No Alto do Moura (reconhecido como polo da arte figurativa do barro impulsionado pelo legado do Mestre Vitalino), a Mazurca encontra-se intimamente ligada à vida dos artesãos locais (Santos, 2021). A estrutura da dança organiza-se em uma grande roda, na qual os praticantes (brincantes ou mazurqueiros) mantêm as mãos dadas. No centro da roda situa-se o puxador (ou coquista), que marca a pulsação rítmica manuseando um chocalho conhecido como maracá. A dinâmica vocal desenvolve-se no sistema de pergunta e resposta, no qual o puxador entoa versos ou loas - nomenclatura utilizada, segundo Santos (2021) para designar as letras das mazurcas, com ou sem melodia - e os integrantes da roda respondem em coro.


O elemento central estruturante dessa Mazurca é a pisada ou trupé (a batida forte, compassada e enérgica dos pés contra o chão). Conforme relatam os mestres e brincantes locais, a intensidade e o vigor do trupé expressam a alegria dos participantes e a força de sua memória ancestral. Do ponto de vista simbólico, os praticantes relatam uma equivalência corporal entre o ato de pisar a terra na dança e o ato de amassar o barro para a confecção da cerâmica figurativa (Santos, 2021).


Já na comunidade quilombola de Mondé dos Cabrais, em Camocim de São Félix, a Mazurca (lá denominada estritamente como Mazuca) carrega uma dimensão fundamental de resistência política, ancestralidade e identidade negra e indígena. A origem dessa manifestação remonta ao período colonial, quando africanos escravizados fugidos dos engenhos da Zona da Mata buscaram refúgio nas matas do Agreste e aliaram-se às populações indígenas autóctones. Dessa confluência nasceu a Mazurca como uma variante do coco de roda, ritmo associado aos cantos e trabalhos coletivos. A prática é conduzida pelo ritmo dos pandeiros, palmas cadenciadas, pisadas firmes e versos improvisados, contando ainda com o apoio melodioso da sanfona (Camocim de São Félix, 2019).



Historicamente, no interior pernambucano, a Mazurca não dependia de palcos, figurinos formais ou datas festivas pré-agendadas para acontecer. Ela era motivada pelo simples prazer de "mazurcar" e pela convivência comunitária nas palhoças e terreiros (Santos, 2021).


Além disso, a literatura etnomusicológica aponta que a Mazurca assumiu a função de ritmo ou canto de trabalho. Durante o século XX, nas residências rurais mais humildes que não possuíam piso de alvenaria, a comunidade reunia-se para "bater o piso" de terra batida. O ato de apiloar o chão para torná-lo firme e rígido era executado ao ritmo das pisadas da Mazurca, transformando o trabalho comunitário em momento de festa. Na tradição popular do Agreste, a Mazurca é frequentemente reverenciada no binômio em que o coco de roda é considerado o "pai" e a mazurca a "mãe" de todas as brincadeiras locais.


Paralelamente às formas populares rurais, a Mazurca integrou o conjunto das danças de salão europeias importadas para o Brasil ao longo do século XIX (período do II Império), figurando ao lado da quadrilha, da polca, da valsa, da redowa e da schottisch (Castagna, s.d.).


A introdução da Mazurca no meio urbano brasileiro ocorreu inicialmente por meio dos espetáculos teatrais. Registra-se que, em junho de 1846, no Rio de Janeiro, a dança foi apresentada ao público na peça teatral Os discípulos de São Ciro. Rapidamente, difundiu-se nos salões aristocráticos do Rio de Janeiro, de Pernambuco e de outras províncias (Castagna, s.d.).


Nos salões oitocentistas, a Mazurca era executada em sua forma antiga e cortês, incluindo figuras coreográficas registradas pelos mestres de dança como a "Roda", a "Troca de pares" e a "Cadeira" (Castagna, s.d.; Giffoni, 1974). Em composições impressas da época - como no álbum Rio de Janeiro: Álbum pitoresco-musical (1856) -, a dança aparecia frequentemente sob a modalidade de polca-mazurca (a exemplo da peça Tijuca, de J. J. Goyanno). Ao longo das décadas, nos salões do interior paulista (como em Pirassununga e Santa Rita do Passa Quatro), a Mazurca urbana derivou em modalidades conhecidas como "Mazurca de um passo", "de dois passos" e "de três passos", até ser gradualmente assimilada ou substituída por novos ritmos no século XX (Giffoni, 1974).


Percebendo essas diferenças entre a Mazurca encontrada no Agreste do estado de Pernambuco, e o estilo presente nos salões oitocentistas do Brasil, nos perguntamos: de onde surge, então, essa dança?


Para compreender as possíveis raízes históricas da manifestação brasileira, faz-se necessário examinar a gênese e a evolução da Mazurca europeia em seu continente de origem.


A Mazurca (em polonês: mazur ou mazurek) é uma dança tradicional de matriz polonesa, cujas origens remontam às planícies da região da Mazóvia (ao redor de Varsóvia), onde os habitantes locais eram denominados Mazurs. Documentada desde o século XVI em tablaturas de alaúde e órgão sob a designação de Chorea polonica, a dança ganhou o nome "mazurka" a partir do século XVIII na literatura musical internacional.



A tradição polonesa engloba um complexo de danças de ritmo ternário que compartilham traços rítmicos e coreográficos semelhantes, diferenciando-se principalmente pelo andamento:

  1. Mazur (ou Mazurek): Dança de andamento moderado a vivo, marcada por caráter cavalheiresco e forte espírito de improvisação em pares;

  2. Oberek (ou Obertas): A variação mais rápida e virtuosa do ciclo, executada em andamento bastante acelerado;

  3. Kujawiak: Provinda da região de Kujawy, caracteriza-se por um andamento lento, caráter lírico e melancólico.


Durante o século XVIII, a Mazurca foi introduzida nas cortes alemãs pelo Rei Augusto II (Eleitor da Saxônia e Rei da Polônia). No século XIX, a dança espalhou-se de forma avassaladora pelos salões aristocráticos de Paris, Londres e de toda a Europa Ocidental.


Tamanha sua importância para época, a Mazurca está presente, por exemplo, no clássico da literatura mundial Guerra e Paz, de Tolstoi. Em quase todos os trechos do livro em que a história está acontecendo em algum evento ou salão, é citado a Mazurca como um dos eventos do local. Como, por exemplo, no retorno de Nicolau Rostov à Moscovo, Rostov estava diferente do que fora há tempos, com atitudes mais "maduras" e adultas:


Agora, ele era um tenente dos hussardos, com um dólmã prateado, condecorado com a Cruz de São Jorge, adestrava o seu cavalo trotador para as corridas, junto com corredores famosos, experientes, respeitáveis. Havia uma dama conhecida, num bulevar, a quem ele visitava à noite. Comandava a mazurca nos bailes em casa dos Arkhárov, conversava sobre a guerra com o marechal de campo Kamiénski, frequentava o Clube Inglês e tratava por "você" um coronel de quarenta anos a quem Deníssov o apresentara (Tolstói, 2017, p. 361, grifo nosso).

Assim como em outro trecho:


Na casa Vogel, havia os bailes mais animados de Moscou. Assim falavam as mães, olhando para as suas adolescentes, enquanto estas executavam os passos que tinham acabado de aprender; assim falavam as próprias adolescentes e os adolescentes que dançavam até cair de cansados [...] porém, naquele último baile, só estavam dançando a escocesa, a inglesa e a mazurca, que acabara de entrar na moda [...] (Tolstói, 2017, p. 396-397, grifo nosso).

A relevância da Mazurca para a identidade polonesa é tamanha que a canção Mazurek Dąbrowskiego (A Mazurca de Dąbrowski), criada em 1797 para as tropas legionárias, tornou-se o Hino Nacional da Polônia. Na música erudita, o compositor Fryderyk Chopin (nascido na Mazóvia) imortalizou a dança ao compor 51 Mazurcas para piano, transformando as matrizes folclóricas em obras-primas da literatura musical romântica mundial.


Na versão nobre e de salão europeia, a postura corporal dos bailarinos reflete a dignidade e a polidez da aristocracia. O tronco permanece ereto, a cabeça elevada e os gestos de braços são nobres e fluidos. A dança é executada por pares que realizam voltas, deslizes e giros rápidos. O cavalheiro desempenha uma atitude de proteção galante em relação à dama (descrita metaforicamente como sua "joia"), chegando a posicionar a mão por trás da cabeça da parceira para protegê-la durante as evoluções. Entre os passos característicos sobressaem-se o bieg mazurowy (passo corrido) e o hołubiec (o estalo rítmico promovido pelo choque dos calcanhares/botas durante os saltos).


A música da Mazurca europeia possui características rítmico-melódicas inconfundíveis:

  • Compasso Ternário: Estruturada em métrica de 3/4 ou 3/8;

  • Ritmo Mazurowy: Padrão rítmico típico composto por duas notas curtas (semicolcheias) seguidas por duas notas mais longas (colcheias) em um métrica de três tempos;

  • Acentuação Irregular: Diferente da valsa (que acentua rigorosamente o primeiro tempo do compasso), a Mazurca polonesa apresenta acentos fortes deslocados para o segundo ou terceiro tempo do compasso;

  • Cadência Aberta: As frases musicais frequentemente encerram-se no terceiro tempo do compasso sobre a dominante de forma não acentuada, criando a sensação de um tema que "desaparece no ar";

  • Instrumentação Tradicional: Na música folclórica polonesa, o acompanhamento original era realizado pelas dudy (gaita de fole tradicional), evoluindo para conjuntos formados por rabeca (violino), bumbo e, posteriormente, acordeão folclórico e clarinete. É comum o emprego do modo lídio (com a 4ª nota aumentada), conhecido historicamente como o "modo polonês".



A trajetória da Mazurca (desde as suas origens nas planícies polonesas da Mazóvia até o seu enraizamento nas terras de barro e nos quilombos do Agreste Pernambucano) exemplifica a capacidade de transformação da cultura corporal.


Nas últimas décadas, a prática da Mazurca no Brasil passou por profundas transformações operacionais, estéticas e funcionais, como apresenta Santos (2021).


Durante a maior parte do século XX, a Mazurca rural acontecia de forma espontânea. Os moradores reuniam-se em palhoças ou casas de farinha, colocavam uma garrafa de vinho no centro da roda para compartilhar entre as pisadas e dançavam sem figurinos padronizados ou preocupação com horários.


No início do século XXI, a constatação do gradual desaparecimento da dança motivou processos de resgate cultural e formalização. Um exemplo marcante ocorreu em 2003 no Alto do Moura, quando a comunidade — com o incentivo da igreja católica local e da Associação dos Artesãos em Barro (ABMAM) — reorganizou a manifestação, fundando o grupo formal Mazurca Pé Quente do Alto do Moura. Processos semelhantes de preservação e valorização ocorrem com a Mazurca do Mondé, em Camocim de São Félix.


Apesar dos esforços de salvaguarda e da gravação de registros fonográficos (como o CD oficial da Mazurca Pé Quente em 2009), a manifestação enfrenta graves entraves para a sua perpetuação:


  • Envelhecimento dos Mestres e praticantes: A maioria expressiva dos integrantes dos grupos tradicionais é composta por idosos que vivenciaram a Mazurca em sua infância. À medida que estes mestres adoecem ou falecem, perde-se parte insubstituível da memória oral e dos versos improvisados;

  • Desinteresse das novas gerações: Os coordenadores culturais apontam uma acentuada dificuldade em atrair jovens e adolescentes, que muitas vezes consideram a Mazurca uma "coisa de velhos" ou preferem investir seu tempo em opções modernas de entretenimento (Santos, 2021; Camocim de São Félix, 2019);

  • Tensões entre espontaneidade e burocracia de palco: A dependência de editais públicos de cultura, traslados e cachês simbólicos gera um descompasso entre a naturalidade histórica da dança e as exigências burocráticas da espetacularização turística (Santos, 2021).

  • Condições socioeconômicas dos praticantes: Uma vez que a Mazurca não se constitui como atividade profissional lucrativa, sua subsistência depende diretamente da sustentabilidade econômica de seus praticantes, que, no caso do Agreste, depende da comercialização do artesanato em barro e do acesso às matérias-primas naturais da terra (Santos, 2021).


Referências:


CAMOCIM DE SÃO FÉLIX. Prefeitura Municipal. Mazurca do Mondé: tradição, resistência e celebração popular. Camocim de São Félix: Portal Oficial do Governo Municipal, 2019. Disponível em: https://camocimdesaofelix.pe.gov.br/mazurca-do-monde/. Acesso em: 29 set. 2026.


CASTAGNA, Paulo. A música urbana de salão no século XIX. Apostila do Curso de História da Música Brasileira (HMB, Apostila 11). São Paulo: Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP), [s.d.].


GIFFONI, Maria Amália Corrêa. Danças de corte: (Gavota - Minueto - Pavana) / Danças dos salões brasileiros de ontem e de hoje. Caderno Cultural, v. 2. São Paulo: Departamento de Educação Física e Desportos do MEC, 1974.


MAZURKA - a renowned dance from Poland. Produção: DW Euromaxx. Bonn: Deutsche Welle, [s.d.]. 1 vídeo (3 min). Publicado pelo canal Euromaxx. Disponível em: https://www.youtube.com/. Acesso em: 29 set. 2026.


MAZURCA DO ALTO DO MOURA. Produção e publicação: Jailma Barbosa. Caruaru: YouTube, [s.d.]. 1 vídeo (aprox. 3 min). Disponível em: https://www.youtube.com/. Acesso em: 29 set. 2026.


SALES, Thiago de Oliveira (org.). Sobre Mazurca. Recife: Gráfica Flamar Editora Ltda, 2015.


SANTOS, Marília Paula dos. Somos do Alto do Moura, da terra do artesão: diversidade e resistência na Mazurca Pé Quente – Caruaru/PE. Artigo Científico (Inventário do Ofício dos Artesãos e Artesãs do Barro do Alto do Moura), p. 109-126, 2021.


SOUZA, Fernando Antônio Ferreira de. Mazurca numa perspectiva etnomusicológica. In: SALES, Thiago de Oliveira (org.). Sobre Mazurca. Recife: Gráfica Flamar Editora Ltda, 2015. p. 53-91.


TOLSTÓI, Liev. Guerra e Paz. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


TROCHIMCZYK, Maja. Mazur (Mazurka). Los Angeles: Polish Music Center, USC Thornton School of Music, [s.d.]. Disponível em: https://polishmusic.usc.edu/research/dances/mazur/. Acesso em: 29 set. 2026.

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