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Frevo

Atualizado: 8 de jan.

Segundo o Dossiê 14 do IPHAN (2016), destinado ao Frevo, essa dança é uma expressão cultural de destaque que integra as festividades do Carnaval, manifestando-se através da música, dança e poesia, tanto em grupo quanto individualmente.


As primeiras evidências de um clube de frevo datam do século XVIII, quando trabalhadores negros do bairro portuário do Recife se reuniam ao som de marchas e músicas improvisadas durante as celebrações dos Ternos de Reis.


Conheça o Frevo


Retratos do Frevo (Pierre Verger, 1947, Recife-PE)
Retratos do Frevo (Pierre Verger, 1947, Recife-PE)

A origem do termo frevo, uma variação do verbo ferver, está inicialmente ligada ao contexto sociocultural e político das ruas do Recife no final do século XIX. Durante esse período, a cidade era palco de agitação e rebeldia, impulsionadas pelos ideais nacionalistas, republicanos e abolicionistas. Com a abolição da escravatura, as classes populares aumentaram sua participação na organização das festas de Carnaval e começaram a ocupar os espaços públicos.


O frevo reflete o direcionamento político, a formação da classe trabalhadora, a organização do movimento operário e a expectativa de modernização. Ele é uma força que emana da massa popular urbana e revela a atmosfera efervescente do Recife em expansão.


Durante a expansão urbana do Recife, o frevo se estabeleceu como uma expressão popular em um ambiente de interações e tensões entre o poder público e a população, servindo como uma tática de sobrevivência para os grupos pobres no contexto da escravidão urbana.


O frevo, segundo o IPHAN (2016), foi o primeiro gênero musical criado no Brasil especificamente para o Carnaval, emergindo, assim como uma música urbana. Ele se manifesta tanto na forma de música quanto de dança, sendo, a relação entre essas duas, indivisíveis.


A música do frevo é caracterizada por sua variedade rítmica, harmônica e melódica, resultante da fusão de diversos gêneros - marcha, dobrado, maxixe, quadrilha, polca etc.



O Frevo se manifesta em três principais vertentes, cada uma com sua identidade sonora distintiva. O Frevo de Rua, essencialmente instrumental, considerado o "irmão mais velho da família" das variações de Frevo, é a forma mais tradicional. Executado por orquestras com marcante predominância dos metais e sopros, sua energia contagiante é construída pela melodia e pelo ritmo vibrante, sem o uso de voz.


[...] a orquestra de sopro e percussão, com predomínio de instrumentos de bocal (trompetes, trombones, tuba) e participação do naipe dito “das madeiras” (embora alguns desses instrumentos sejam hoje feitos de metal): saxofones, clarinetes, requinta, flauta e flautim; a percussão composta de surdo, caixa e pandeiro (IPHAN, 2016, p. 33).

Já o Frevo-Canção mescla características dos frevos de rua com a estrutura de uma canção. Ele inicia com uma introdução orquestral típica, de andamento acelerado, para então dar lugar a uma parte lírica, onde a voz se torna o elemento central, desenvolvendo melodias e letras que frequentemente celebram o espírito carnavalesco.


Por fim, o Frevo de Bloco possui uma sonoridade mais dolente e nostálgica. Sua execução é característica das orquestras de pau e corda, que reúnem instrumentos como violões, cavaquinhos, banjos e bandolins, harmoniosamente complementados por sopros e percussão. Este estilo acompanha os tradicionais blocos líricos, que desfilam pelas ruas com seus cantores e coro.


Existem, além dos três tipos de Frevo, diferentes agremiações, cada uma com sua história e características únicas.


Entre as mais tradicionais estão os Clubes de Frevo, que desfilavam pelas ruas e becos do Recife no século XIX e início do XX. Compostos por trabalhadores assalariados, pequenos comerciantes, capoeiristas e ambulantes, grupos como os Caiadores, Vassourinhas, Canna Verde e o Clube das Pás de Carvão evidenciam como as classes menos privilegiadas foram fundamentais para a formação e a vitalidade da festa carnavalesca da cidade.


Já os Blocos de Pau e Corda, também conhecidos como Blocos Carnavalescos Mistos, surgiram na década de 1920 com uma formação inicial inspirada nos ranchos cariocas do fim do século XIX. A partir da fundação do pioneiro Bloco da Saudade, em 1974, multiplicaram-se agremiações desse estilo, hoje frequentemente chamadas de Blocos Independentes ou Líricos, que se apresentam ao som dolente e nostálgico de instrumentos de cordas e sopros.


Com um espírito mais espontâneo e descontraído, as Troças Carnavalescas assemelham-se aos antigos Clubes de Frevo em sua composição popular, mas têm no improviso e na informalidade a sua essência. Elas costumam desfilar durante o dia, pela manhã ou à tarde, animando as ruas com muito frevo e irreverência.


Por fim, os Clubes de Bonecos trazem um elemento visual espetacular e histórico. Os bonecos gigantes chegaram ao Brasil com os portugueses, inicialmente presentes em procissões e festas religiosas. O primeiro criado especificamente para o Carnaval pernambucano foi “Zé Pereira”, em 1919, na cidade de Belém de São Francisco, uma homenagem a um folião português do século XIX. De origem medieval e europeia, essas figuras transformaram-se em um dos ícones mais fortes e celebrados do Carnaval, especialmente na cidade de Olinda, onde desfilam majestosamente, encantando multidões.


Bonecos de Olinda são bonecos gigantes originados na cidade de Olinda e usados em eventos festivos como o Carnaval de Pernambuco. São feitos, geralmente, de tecido, isopor, papel, madeira, fibra de vidro e alumínio.
Bonecos de Olinda são bonecos gigantes originados na cidade de Olinda e usados em eventos festivos como o Carnaval de Pernambuco. São feitos, geralmente, de tecido, isopor, papel, madeira, fibra de vidro e alumínio.

A dança do frevo, conhecida como passo, é um solo que incorpora movimentos de várias origens, destacando-se pela ginga, vigor e improviso, provavelmente uma herança da presença dos capoeiras, negros considerados vadios e desordeiros, que lideravam os desfiles de Carnaval. Essa aproximação entre Capoeira e Frevo é perceptível ao observarmos os passos, semelhantes a golpes: como chutando de frente, pernada, abre-alas, rojão e tramela, passos firmes e agressivos.


No abre-alas, por exemplo, parece que o passista está se preparando para brigar, dançando com as pernas abertas e os braços se movimentando para frente como se dessem socos no ar. No entanto, diferentemente do que ocorre na capoeira, no passo os dançarinos praticamente não se tocam e quase não há movimentos com as mãos no chão (IPHAN, 2016, p. 38)

O Frevo, absorvendo características e traços de diferentes culturas, não recebe apenas influencia da Capoeira. Um dos passos mais característicos da dança (a Locomotiva) é fruto da mescla cultural com os Russos, por exemplo:


os grupos russos que se apresentaram na década de 1950 nas ruas e nos teatros do Recife influenciaram a criação de alguns passos de frevo, a exemplo do locomotiva, passo em que o passista fica de cócoras jogando as pernas para frente alternadamente. O frevo também recebeu influência da dança eslava, caracterizada pelos grandes saltos com as pernas abertas no ar, como o carpado; dos musicais americanos e do clássico, a exemplo dos passos pontinha de pé, festival de bailarina e britadeira, executados na ponta do pé, mas com os dedos dobrados (IPHAN, 2016, p. 39)


Assim como em sua origem, o frevo continua evoluindo e absorvendo influências. Ele se manifesta na música e na poesia que celebra o passado e retrata o cotidiano, e na dança emblemática pelo seu improviso e como base para outros estilos. Tudo isso traz à tona o entusiasmo e a alegria dos foliões durante as festividades do carnaval de rua em Pernambuco.




Referências:


Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. Dossiê 14: Frevo. Yêda Barbosa (Coord.). Brasília, DF : IPHAN, 2016.


Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. Frevo celebra 10 anos como Patrimônio Cultural. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, 2017. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/3989/frevo-celebra-10-anos-como-patrimonio-cultural


PAÇO DO FREVO. Tipos de Frevo. Disponível em: https://artsandculture.google.com/story/tipos-de-frevo/mAXxPtU4UJ9vKQ

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