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Corrida do Queijo

A Corrida do Queijo (Cheese Rolling) que ocorre anualmente em Cooper’s Hill (localização ao lado), próximo à vila de Brockworth em Gloucestershire, Inglaterra, constitui-se como uma das mais diferentes manifestações da cultura corporal britânica.


Este evento, que atrai milhares de pessoas - desde espectadores à participantes - de todo o mundo, consiste na arriscada descida de uma colina íngreme e irregular atrás de um queijo rolando.


Conheça a Corrida do Queijo (Cheese Rolling)


As origens da Corrida do Queijo são incertas, sendo objeto de especulações que remontam a períodos históricos remotos. De acordo com diferentes interpretações, a tradição poderia ter raízes em rituais pagãos pré-cristãos. Alguns "acreditam que a tradição pode ter sido iniciada pelos fenícios, que habitaram partes do sudoeste da Grã-Bretanha antes da invasão romana de 54 a.C., pelos antigos bretões ou pelos próprios romanos" (BBC, 2009).


Uma teoria recorrente associa a prática a rituais de fertilidade e renovação sazonal. Conforme relatos, "pacotes de gravetos em chamas eram rolados colina abaixo para representar o nascimento do Novo Ano após o inverno" (Tung, 2019). Esta ideia é corroborada pela menção de que "pedaços de bolo ou biscoito são conhecidos por terem sido usados no passado, provavelmente como um rito de fertilidade, na esperança de produzir uma boa colheita" (BBC, 2009).


A fusão entre estes ritos de fogueira e a oferta de alimentos pode ter dado origem à competição como é conhecida hoje (Weeklytales, s.d.).


A primeira evidência escrita do evento data de 1826, "encontrada em uma mensagem ao Gloucester Town Crier" (BBC, 2009). No entanto, mesmo nessa época, o evento já era considerado uma tradição antiga. Moradores locais, como Jean Jeffries, possuem registros familiares que "nos levam de volta a meados dos anos 1700", descrevendo-o naquela época "como um evento que estava em andamento mesmo naquele momento" (BBC, 2009).


Isso indica que a Corrida do Queijo é, há séculos, uma prática profundamente enraizada na comunidade local de Brockworth, originalmente um evento de caráter restrito e comunitário.


Em sua forma tradicional e atual, a dinâmica da corrida é, ao mesmo tempo, simples e perigosa. O objeto de desejo é um queijo Double Gloucester tradicional, pesando entre 7 e 9 libras (aproximadamente 3 a 4 kg), feito de forma circular (Tung, 2019; Discover Britain, 2019).


Um Mestre de Cerimônias, caracteristicamente vestido com casaco branco e cartola, inicia a prova com um canto rítmico (Tung, 2019; BBC, 2009):


One to be ready! Two to be steady! Three to prepare! and four to be off!

Ao sinal final, o queijo é lançado ladeira abaixo e os competidores se atiram na sua perseguição pela íngreme encosta de Cooper’s Hill, que possui uma íngreme inclinação (Discover Britain, 2019).


O objetivo é um só: pegar o queijo; mas, como ele recebe uma vantagem de um segundo e pode atingir velocidades de até 70 milhas por hora (cerca de 113 km/h), torna-se uma tarefa quase impossível (Tung, 2019).


Assim, o vencedor é "a primeira pessoa a cruzar a linha de chegada na base da colina" (Tung, 2019).



A topografia do local é o elemento central do perigo e do desafio físico. A colina é "íngreme e de superfície irregular", com "grama que está enraizada e esconde fendas lamacentas e montes siltosos" (Tung, 2019; Weeklytales, s.d.).


As lesões são frequentes e variam de torções a fraturas. Um participante descreveu a cena da seguinte forma:


vinte jovens perseguindo um queijo de um penhasco e caindo 200 jardas até o fundo, onde são raspados por paramédicos e levados para o hospital (Tung, 2019).

Para conter os ferimentos, uma complexa estrutura de segurança foi desenvolvida ao longo dos anos. Serviços de primeiros socorros são fornecidos, e membros do clube de rúgbi local e de associações de jovens agricultores atuam como "catchers" (apanhadores) na base da colina, com a função de amortecer a chegada dos competidores ainda em pé e transportar os feridos (Tung, 2019; BBC, 2009).


O evento sofreu transformações significativas nas últimas décadas, principalmente devido a preocupações com segurança e responsabilidade legal. Até 2009, a corrida era um evento oficial, mas foi "cancelada devido a preocupações com a segurança dos espectadores" (Tung, 2019). Entretanto, a tradição não foi interrompida. A comunidade local manteve viva a prática de forma não oficial, demonstrando uma resistência notável.


Em 2013, diante de advertências policiais à Diana Smart - "queijeira" tradicional -, de que ela poderia ser responsabilizada por lesões, um queijo de espuma foi usado por um ano, mas, em 2014, o queijo real voltou a ser usado (Tung, 2019; Weeklytales, s.d.).


Figuras icônicas estão ligadas à identidade do evento. A queijeira Diana Smart, de Churcham, forneceu os queijos oficiais de 1988 até sua aposentadoria, quando seu filho Rod assumiu a produção (Tung, 2019; Weeklytales, s.d.). Ela era "a única pessoa em Gloucestershire a fazer queijo Double Gloucester usando métodos tradicionais" (Tung, 2019).


A fazendeira Diana Smart, responsável por produzir o queijo artesanal para a corrida por mais de 40 anos.
A fazendeira Diana Smart, responsável por produzir o queijo artesanal para a corrida por mais de 40 anos.

Entre os competidores, destaca-se Chris Anderson, um ex-soldado de infantaria e morador de Brockworth, considerado o maior campeão da história recente. Anderson "dominou a colina por 15 anos, vencendo um total de 23 corridas" (Weeklytales, s.d.; Discover Britain, 2019). Sua dedicação, morando ao pé da colina e subindo-a rotineiramente para treinar e limpar o percurso, personifica a profunda conexão entre os competidores locais e a tradição.


A Corrida do Queijo de Cooper’s Hill é, portanto, muito mais do que uma simples e, ao mesmo tempo, diferente competição. Ela é a manifestação contemporânea de possíveis rituais agrários pagãos, transformada em um evento esportivo-comunitário de alto risco e forte apelo identitário. Sua história é marcada pela continuidade, adaptação e resistência. Apesar dos cancelamentos oficiais, das ameaças legais e dos perigos físicos inerentes, a comunidade de Brockworth e um crescente número de entusiastas internacionais garantem sua realização anual.


Referências:



DISCOVER BRITAIN. Cooper’s Hill Cheese Rolling. 2019. Disponível em: www.discoverbritain.com/history/traditions/coopers-hill-cheese-rolling/


TUNG, Hoang. Cheese rolling race of England. 2019. Disponível em: https://vovworld.vn/en-US/culture-rendezvous/cheese-rolling-race-of-england-766711.vov


WEEKLYTALES. Cooper's Hill Cheese Rolling and Wake. s.d. Disponível em: https://weeklytales.com/articles/cooper-s-hill-cheese-rolling-and-wake

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