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Cama de Gato (Ketinho Mitselü, Mojarutap Myrytsiowitz ou Kadjót)

A formação cultural do Brasil, marcada pela miscigenação racial e pela fusão entre diferentes povos, tem nos indígenas um de seus pilares fundamentais. Essa influência manifesta-se em diversos aspectos do cotidiano, incluindo práticas corporais tradicionais. Entre essas práticas, destaca-se um jogo simples, porém rico em significados, conhecido no universo ocidental como “cama de gato”, “jogo dos fios” ou “jogo da linha”.


Essa brincadeira, que consiste em trançar um cordão entre os dedos das mãos para criar figuras, revela-se como uma expressão cultural de grande relevância, presente em diferentes povos indígenas brasileiros, cada qual com suas denominações, materiais e significados próprios.


O jogo recebe nomes distintos conforme a etnia que o pratica. Entre os Kalapalo, que habitam o Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, a brincadeira é chamada de Ketinho Mitselü. Já entre os Kamaiurá, também do Xingu, recebe o nome de Mojarutap Myrytsiowitz. Os Caiapós (ou Kayapó), da Amazônia, denominam a prática como Kadjót (ou Kadjot), termo de origem indígena amplamente utilizado por povos da região amazônica, incluindo registros entre os Taurepang em Roraima.


Indígena Taurepang brinca com o que parece ser uma 'cama-de-gato' em 1911 — Foto: Acervo/Maurício Zouein (disponível em: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2023/10/05/primeiro-filme-feito-em-roraima-mostra-rotina-de-indigenas-no-inicio-do-seculo-passado.ghtml)

Aqui precisamos ressaltar uma distinção necessária: não confundir Kadjót (jogo de fios/cama de gato) com Kagót (uma espécie de "queimada" com flechas praticada pelo povo Xikrin, já apresentada aqui no Almanaque da Cultura Corporal).


Do ponto de vista material, o jogo adapta-se aos recursos disponíveis em cada ambiente. Os Kalapalo “utilizam um fio comprido feito da palha de buriti trançado e amarrado nas pontas” (Povos Indígenas do Brasil, s.d.).


Similarmente, entre os Kamaiurá, a cama-de-gato é feita com fio de buriti para formar figuras ligadas à sua cultura, como morcegos, gaivota, peixes e cobra, entre outros.


Em contraste, os Caiapós confeccionam o cordão geralmente de algodão, demonstrando a diversidade de matérias-primas empregadas.


Independentemente do material, a estrutura básica do jogo permanece: um fio comprido, com as pontas amarradas, que é entrelaçado nos dedos para dar origem a diferentes formas.


Para além do aspecto recreativo, o jogo carrega significados profundos nas culturas indígenas. Os Kalapalo, ao entrelaçarem rapidamente o fio com os dedos, formam diversas figuras: animais, figuras da mitologia e referências bem-humoradas às suas atividades. Desse modo, a brincadeira torna-se um veículo de transmissão de narrativas e de representação do cotidiano.



Entre os Kamaiurá, os participantes criam diferentes figuras, demonstrando habilidade manual e originalidade, o que evidencia o valor atribuído à criatividade e à destreza individual.


Para os Caiapós, o Kadjót representa a habilidade de tecer e criar, sendo uma expressão cultural forte, especialmente entre as crianças.


A Cama de Gato é um jogo/brincadeira simples que é realizado com um pedaço de barbante/fio. A brincadeira envolve duas ou mais pessoas, que usam a linha para fazer várias formas, cada uma partindo da anterior. O objetivo do jogo é chegar na última forma sem cometer erros.


Outra característica fundamental é a continuidade da trança: à medida que é passada de uma criança para outra, não pode deixar que desmonte a cama de gato. Assim, o jogo testa não apenas a habilidade individual de criação das formas, mas também a capacidade de manter a integridade da figura durante a transferência entre os participantes. O propósito geral da brincadeira é criar figuras com fios que representam formas do cotidiano, utilizando apenas as mãos.


Seja como Ketinho Mitselü entre os Kalapalo, Mojarutap Myrytsiowitz entre os Kamaiurá, ou Kadjót entre os Caiapós, essa brincadeira revela a capacidade humana de transformar um simples fio em um artefato lúdico carregado de simbolismo. As variações nos materiais (palha de buriti, algodão), nas figuras representadas (animais, elementos mitológicos, referências cotidianas) e nos significados atribuídos demonstram a riqueza e a diversidade das culturas indígenas.



Referências


FOLHA DE SÃO PAULO. Jogos e Brincadeiras, 2003. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0412200317.htm


POVOS INDÍGENAS DO BRASIL. Brincadeiras. s.d. Disponível em: https://mirim.org/pt-br/como-vivem/brincadeiras

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