Calcio Storico Fiorentino
- Gabriel Garcia Borges Cardoso

- 29 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
O Calcio Storico Fiorentino, traduzido literalmente como "futebol histórico", é muito mais do que um simples evento esportivo; trata-se de uma manifestação cultural profundamente enraizada na identidade da cidade de Florença, na Itália.
Realizado anualmente na Piazza Santa Croce, o torneio reúne milhares de espectadores para assistir a confrontos entre equipes representando os quatro bairros históricos da cidade, identificados por cores: Azzurri (Azuis) de Santa Croce, Rossi (Vermelhos) de Santa Maria Novella, Bianchi (Brancos) de Santo Spirito e Verdi (Verdes) de San Giovanni. Embora superficialmente lembre o rúgbi pela dinâmica física, o Calcio Storico distingue-se radicalmente pelo seu cenário único – uma arena de areia montada em uma praça renascentista –, pelos trajes históricos dos participantes, pela violência explícita permitida e por uma tolerância incomum a lesões graves.
As origens do Calcio Storico são remotas, frequentemente associadas aos jogos de bola da antiguidade, como a "Sferomachia" grega e o "Harpastum" romano. Também conhecido como "Calcio in Costume" devido aos trajes do século XVI que os jogadores ainda utilizam, o esporte se estruturou em Florença. As primeiras notícias oficiais datam do final do século XV.
Um evento histórico marcante ocorreu em 17 de fevereiro de 1530, durante o cerco das tropas do Imperador Carlos V. Em um ato de desafio, os florentinos, cansados pelo cerco, realizaram uma partida na Piazza Santa Croce. Esta "Partita dell'assedio" (Partida do Cerco) tornou-se lendária. A tradição foi celebrada até 1739, ano da última partida documentada na era pré-moderna. Após uma interrupção de dois séculos, o Calcio Storico foi retomado em 1930, por ocasião do 400º aniversário da heroica partida de 1530. Desde então, é realizado anualmente na mesma Piazza Santa Croce, com raras exceções, consolidando-se como um ícone da resistência e identidade florentina.
A competição é um evento cívico de profundo significado. Acompanhar o suntuoso desfile histórico que precede cada partida, especialmente a final realizada, sempre, no dia 24 de junho – dia de São João Batista, padroeiro de Florença –, é uma tradição para os habitantes. Torcer pela cor do seu bairro é considerado quase um dever cívico.
Ser um calciante (jogador) que representa sua cor com orgulho, determinação e propósito é uma honra máxima. Homens de todas as idades e profissões – desde padeiros e operários da construção civil até executivos de marketing – assumem essa responsabilidade, muitos seguindo os passos de seus pais e avós. A participação é motivada exclusivamente pelo amor à tradição e ao bairro.
Historicamente, o time vencedor recebia um bezerro para abate na celebração; atualmente, o prêmio é um jantar gratuito e uma pequena faixa comemorativa. Não há prêmios em dinheiro ou troféus levantados após a final. Os jogadores suportam concussões, lacerações e fraturas simplesmente porque "é o que os florentinos sempre fizeram".
O jogo ocorre em um campo retangular - uma arena - coberto de areia. Cada equipe é composta por 27 jogadores, divididos aproximadamente em três linhas. O objetivo é marcar um caccia (gol) arremessando a bola (de couro, sem enchimento de ar) sobre uma linha de fundo adversária, onde se encontra uma rede ou calha longa. Vence a equipe que marcar mais cacce. A partida tem duração de 50 minutos contínuos, embora a densa areia que dificulta os movimentos faça com que pareça muito mais longa para quem joga.
Durante a partida, o passe é extremamente difícil e formações de scrum (agrupamentos de jogadores disputando a bola) são constantes. Os jogadores envolvem suas cinturas com várias camadas de fita adesiva para dificultar que os oponentes os agarrem, mas os confrontos físicos intensos são inevitáveis.
A violência, para quem assiste, é interminável e intencional. Uma estratégia fundamental no Calcio Storico é tentar incapacitar o maior número possível de adversários através de socos, chutes, derrubadas, chaves de cabeça, pisões e todo tipo de contato. Isso ocorre porque as regras proíbem expressamente substituições. Isso significa que se um jogador for forçado a deixar o campo (por lesão, expulsão ou incapacitação), sua equipe fica com um jogador a menos pelo resto da partida. Embora ninguém tenha morrido em uma partida moderna, lesões graves são comuns; há relatos de remoção de baço, e os médicos presentes costumam precisar entrar com macas numerosas vezes (seis, sete, oito ou mais) por jogo.
A figura do árbitro existe, mas tende a ser mais decorativa do que funcional. Seu papel principal é evitar que vários jogadores da mesma equipe ataquem simultaneamente um único adversário. Apesar de seus trajes incluírem espadas, estas parecem ter pouco efeito dissuasivo, como evidenciado em 2017, quando a polícia interrompeu uma partida após membros dos Azzurri agredirem três árbitros diferentes. A aplicação das regras, dentro do caos permitido, é um desafio constante.
O torneio anual segue uma estrutura definida. O sorteio dos confrontos iniciais ocorre no Domingo de Páscoa, durante a tradicional "Explosão do Carro" (Scoppio del Carro). Durante o mês de junho, são realizadas duas partidas eliminatórias iniciais. As duas equipes vencedoras disputam a grande final em 24 de junho, dia de São João Batista. Cada partida é anunciada por uma imponente parada em trajes históricos do século XVI, que parte da Piazza Santa Maria Novella e percorre o centro da cidade até chegar à Piazza Santa Croce, transformada para a ocasião em uma arena de areia.
O Calcio Storico Fiorentino permanece como um fenômeno cultural único.
Referências:
FEEL FLORENCE. Calcio Storico - Historical Football. Disponível em: https://www-feelflorence-it.translate.goog/en/percorsi/calcio-storico-historical-football?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc. Acesso em: 30 maio 2025.
NATIONAL GEOGRAPHIC. In Florence, Italy, a centuries-old tradition fights for survival. Disponível em: https://www-nationalgeographic-com.translate.goog/culture/article/in-florence-italy-centuries-old-tradition-fights-for-survival?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc. Acesso em: 30 maio 2025.





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