Bungee Jumping e a apropriação do Nangol
- Gabriel Garcia Borges Cardoso

- 12 de abr.
- 9 min de leitura
Ao buscarmos realizar uma investigação sobre as origens do bungee jumping, na intenção de compreendermos de onde surge o desejo por saltar de lugares muito alto, com chances de morte, fomos "conduzidos" a uma manifestação cultural singular, localizada no arquipélago de Vanuatu, no sudoeste do Oceano Pacífico: o ritual do Nangol, também referido na literatura de língua inglesa como Land Diving.
Neste sentido, este texto, a partir de uma revisão documental de fontes históricas, relatos etnográficos e descrições geográficas, visa traçar o percurso histórico do bungee jumping, desde suas raízes mitológicas e rituais de fertilidade até sua mercantilização como prática de aventura no contexto ocidental.
Do ritual à mercadoria: o Nangol
O Nangol surge na Ilha de Pentecostes, localizada cerca de 100 km a sudeste da Ilha de Espírito Santo, uma ilha de origem vulcânica com 438 km², caracterizada por uma cadeia montanhosa central que atinge 946 metros no Monte Vulmat (Britannica, 2012).
Para compreender a profundidade simbólica do Nangol, é necessário recorrer às narrativas orais mitológicas locais, denominadas dun na ngamômô ou especificamente dun na gol, que apresentam a origem da prática.
Segundo Jolly (2016), as lendas convergem para a história de um casal, Tamlie e sua esposa, cuja relação é marcada por conflitos, violência ou desejos excessivos por parte do marido. A narrativa descreve a fuga da esposa, que sobe em uma árvore alta e amarra cipós, ou fibras de coqueiro, em seus tornozelos. Ao ser perseguida pelo marido, ela salta, sendo salva pela tensão das cordas artesanais, enquanto ele, ao pular sem o mesmo artifício, morre devido ao impacto com o chão (Jolly, 2016, p. 197-198).
Este mito fundador revela uma inversão significativa na execução contemporânea do ritual. Segundo Jolly (2016), as fontes indicam que, originalmente, a prática era concebida e executada por mulheres. Contudo, uma transição de gênero ocorreu sob a justificativa de que as saias de grama das saltadoras, ao se voltarem para baixo pela ação da gravidade durante a queda, expunham suas genitálias. Como consequência, os homens teriam usurpado o controle do ritual, consolidando a forma atual na qual apenas os indivíduos do sexo masculino saltam do alto da torre, enquanto as mulheres assumem o papel de provedoras do suporte rítmico e espiritual no solo (Jolly, 2016, p. 197-198).

Enquanto rito, o salto não é realizado em árvores, como no conto de origem. Hoje são usadas torres, construídas com troncos amarrados por cipós, em formato de treliça, podendo atingir entre 20 e 30 metros de altura, afunilando-se do centro para o topo (Jolly, 2016, p. 198). Attenborough (1966) descreve a torre como uma estrutura central (árvore podada) cercada por um "andaime desconjuntado de varas amarradas com cipós", estabilizado por longas cordas de liana. Projetam-se horizontalmente da face frontal diversas plataformas, sustentadas por escoras finas, das quais pendem os pares de longos cipós (Attenborough, 1966).
Além da função mecânica, a torre (tarbe gol) carrega uma densa carga simbólica. Ela é interpretada pelos locais como a manifestação material de um corpo humano vivo e bissexual, onde é possível identificar metaforicamente pernas, joelhos, barriga, pescoço e cabeça (Jolly, 2016, p. 199).
A execução do salto no Nangol é um ato de coragem. Não há obrigatoriedade; o salto é uma decisão de afirmação da masculinidade. O movimento esperado é descrito como um "mergulho de andorinha de ponta-cabeça", com os braços firmemente cruzados contra o peito (Jolly, 2016, p. 199). Attenborough (1966) descreve a coreografia do salto: o jovem avança até a borda da plataforma, ergue as mãos, atira um ramo de folhas de cróton ao ar, cruza os braços e tomba lentamente para frente.

Após o mergulho, quando o corpo atinge aproximadamente 3 metros do solo, os cipós nos tornozelos se retesam. Neste momento, um som característico ecoa: o estalo das finas escoras que sustentam a plataforma. Esse rompimento da plataforma não é um acidente, mas um mecanismo de engenharia ancestral para "amortecer" e proporcionar uma aterrissagem mais suave. A precisão é tamanha que o objetivo histórico é que o mergulhador apenas roce o solo com a cabeça (Britannica, 2012). Para garantir essa margem de segurança, o terreno inclinado na base é meticulosamente limpo e peneirado para a remoção de quaisquer objetos duros (Jolly, 2016, p. 198).
Um relato de viagem descreve a experiência como uma viagem no tempo, onde a dança e os cânticos dos homens e das mulheres com saias de grama criam uma atmosfera suspensa. O canto aumenta em volume e cessa abruptamente no momento do salto, gerando um clímax de suspense que só é quebrado pelo impacto visual e sonoro da queda (TCSWORLDTRAVEL, s.d.). A presença feminina, adornada com colares florais e saias brancas, é fundamental para coroar o espetáculo, provendo o apoio rítmico com cantos e assobios agudos (Jolly, 2016, p. 201-202). O rito se estende para além do salto, culminando em um banquete comunitário onde são compartilhados pratos típicos como o lap lap e a kava, reforçando a coesão social do evento (TCSWORLDTRAVEL).
A prática do Nangol está intrinsecamente ligada ao ciclo agrícola e ao conceito de kastom (modo tradicional de conduta). O ritual é tradicionalmente realizado entre os meses de abril e maio para garantir uma boa colheita de inhame, o cultivo sagrado que domina o calendário da ilha (Britannica, 2012; Jolly, 2016, p. 202). Assim, as torres são erguidas após a colheita, momento em que os cipós, em processo de ressecamento, atingem sua elasticidade máxima para amortecer o impacto (Jolly, 2016, p. 202).
O kastom impõe restrições comportamentais severas aos participantes. Para garantir a integridade das amarras e evitar a "má sorte" do rompimento, exige-se a abstinência sexual dos saltadores na noite que antecede a cerimônia. A quebra desta regra é temida como um presságio de falha estrutural ou acidente (Jolly, 2016, p. 201). Socialmente, o rito celebra o arquétipo do guerreiro (bwari), exibindo uma masculinidade "quente" associada à força física, ao risco calculado e à valentia jovial (Jolly, 2016, p. 202-203).
Entretanto, como ocorre com quase todas as manifestações, o que era um ritual íntimo, cuja torre era destruída após o uso, converteu-se em um espetáculo mercantilizado. Jolly (2016) identifica marcos cruciais nesse processo. O primeiro foi a instrumentalização do ritual como moeda de troca política: em 1952, um salto foi organizado a pedido do Comissário Residente Francês para garantir a libertação de aldeões presos (Jolly, 2016, p. 205-206). O segundo marco, mais trágico e simbólico, ocorreu em 1974, quando a pressão governamental forçou a realização de um salto fora de época (estação chuvosa) para a visita da Rainha Elizabeth II. As condições inadequadas dos cipós resultaram em um acidente fatal, gerando ressentimento entre os nativos e reforçando a percepção de enfraquecimento das tradições frente às demandas externas (Jolly, 2016, p. 206-207).
Além disso, segundo Jolly (2016), a influência da mídia e do turismo introduziu o fenômeno do "kastom cosmético". A partir de 1969, com a chegada de cineastas como Kal Muller, os costumes foram reencenados para as câmeras sob um viés exótico. Para atender à estética de "autenticidade" comercializada, os saltadores foram compelidos a abandonar os calções de tecido importado (já registrados em fotografias dos anos 1950) e a adotar exclusivamente o pipis (bainha peniana tradicional), enquanto adornos femininos modernos, como brincos, eram proibidos durante as filmagens (Jolly, 2016, p. 207-208). Esta reinvenção visual visava atender a uma expectativa externa de pureza cultural, distanciando a performance do seu contexto ritual original para inseri-la na lógica do consumo turístico.
Do cipó ao elástico: a origem do Bungee Jumping e a controvérsia da propriedade intelectual
É nesse ponto que a história do Bungee Jumping começa a aparecer. Entre os pesquisadores e historiadores, como é apresentado por Jolly (2016), a transição do ritual para o esporte moderno é explicitamente reconhecida. Embora o Oxford Dangerous Sports Club tenha realizado os primeiros saltos ocidentais inspirados por esses relatos, foi o neozelandês Alan Hackett quem popularizou a modalidade comercialmente, realizando saltos de pontes em 1986 e da Torre Eiffel em 1987 (Britannica, 2024; Jolly, 2016, p. 213).
A apropriação do conceito gerou um intenso embate jurídico e ético, segundo Jolly (2016). Hackett admitia a inspiração no gol de Vanuatu, porém "insistia que suas inovações técnicas justificavam patentes de propriedade intelectual" (Jolly, 2016, p. 213).
A principal inovação reivindicada foi o desenvolvimento de um "arnês para o tornozelo com uma corda extremamente elástica" (Jolly, 2016, p. 213), substituindo os cipós vegetais e os arreios de paraquedas por uma tecnologia sintética padronizada e comercializável. Essa patente, associada a uma empresa avaliada em aproximadamente 80 milhões de dólares americanos, desencadeou em 1995 um processo judicial por quebra de direitos de propriedade intelectual movido não apenas pelas comunidades de Pentecostes, mas elevado a uma preocupação nacional articulada pelo Primeiro-Ministro e pelo Procurador-Geral de Vanuatu (Jolly, 2016, p. 213).
A controvérsia explicita a tensão entre a herança cultural imaterial e a inovação técnica capitalista. Conforme analisado por Jolly (2016), a disputa transcende a mera compensação financeira, configurando-se como uma "batalha de poder entre homens" pelo controle hegemônico sobre um "espetáculo supremamente masculino" (p. 213).
O Bungee Jumping: a Era Comercial e a Expansão Internacional
Hackett realizou seu primeiro salto a partir da Ponte Greenhithe, em Auckland, no ano de 1986. Nos anos seguintes, sua estratégia de marketing baseou-se na realização de saltos emblemáticos em estruturas icônicas – incluindo a Torre Eiffel (vídeo abaixo) –, o que gerou grande interesse público e midiático.
Este movimento culminou na abertura do primeiro local comercial permanente de bungee jumping do mundo, a Ponte Kawarau, localizada no desfiladeiro do Rio Kawarau, próximo a Queenstown, na Ilha Sul da Nova Zelândia. Hackett permanece como um dos maiores operadores comerciais do setor, com empreendimentos em diversos países.
A expansão do esporte para outros continentes seguiu um ritmo acelerado. Na África, a Ponte do Rio Bloukrans foi o primeiro local utilizado como plataforma de salto, introduzido pela empresa Face Adrenalin em 1990. Desde 1997, o local é operado comercialmente e é reconhecido como o bungee jump comercial de ponte mais alto do mundo, consolidando a presença do esporte no continente africano.
A evolução do bungee jumping como prática de aventura está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento de equipamentos específicos e à padronização de protocolos de segurança. A corda elástica utilizada na modalidade difere significativamente dos cipós vegetais do ritual de Pentecostes. O material predominante é um cordão elástico trançado produzido industrialmente, composto por múltiplos filamentos de látex envoltos por uma capa externa resistente. Esta capa pode ser aplicada com o látex pré-tensionado, resultando em uma resistência à extensão já significativa no comprimento natural da corda, o que proporciona um repuxo mais brusco e definido. A cobertura trançada oferece também vantagens substanciais em termos de durabilidade.
Alternativamente, operadores como o próprio A. J. Hackett e a maioria das empresas do hemisfério sul utilizam cordas não trançadas, com os filamentos de látex expostos. Este tipo de corda proporciona um repuxo mais suave e prolongado, além de permitir a produção artesanal ou doméstica. Independentemente do tipo de corda, a segurança do salto depende de cálculos rigorosos. Uma causa relativamente comum de acidentes fatais está associada à utilização de uma corda excessivamente longa.
Embora pareça lógico, é necessário sempre avisar que a corda deve ser substancialmente mais curta que a altura da plataforma de salto para permitir sua extensão máxima antes do impacto com o solo.
Estima-se que milhões de saltos bem-sucedidos tenham sido realizados desde 1980, um registro de segurança atribuível à adesão rigorosa dos operadores a padrões e diretrizes normativas, que incluem a dupla verificação de cálculos e conexões antes de cada salto.
Como medida adicional de segurança, em resposta a incidentes onde participantes se desprenderam do equipamento de tornozelo, muitos operadores comerciais passaram a adotar o uso de um arnês corporal. Este equipamento, geralmente derivado de equipamentos de escalada, funciona como um sistema de segurança secundário, garantindo a retenção do saltador mesmo em caso de falha na fixação primária dos tornozelos.
Bem, diante de tudo que buscamos apresentar, a trajetória do Nangol ao Bungee Jumping representa de forma contraditória os processos de ressignificação, ou melhor, de apropriação cultural no mundo globalizado. De um rito de passagem e fertilidade agrícola, profundamente enraizado em narrativas mitológicas e estruturas simbólicas de gênero e espiritualidade, a prática foi progressivamente deslocada de seu contexto original. As pressões coloniais, o olhar antropológico e, finalmente, a voracidade da indústria do turismo e do entretenimento radical transformaram o salto com cipós em uma mercadoria visual e experiencial.
Enquanto o bungee jumping se consolida como prática de aventura regido por normas técnicas de engenharia e segurança comercial, sua "sombra" cultural permanece atada aos cipós da Ilha de Pentecostes, onde a tensão entre a preservação do kastom e a negociação com a modernidade continua a redefinir o significado do salto para as novas gerações de bwari.
Referências
ATTENBOROUGH, D. The Land-Diving Ceremony in Pentecost, New Hebrides. Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Series B, Biological Sciences, v. 251, n. 772, p. 503, 29 dez. 1966. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/2416770.
BUNGEE JUMPING. In: Encyclopædia Britannica. 2024. Disponível em: https://www.britannica.com/sports/bungee-jumping.
JOLLY, Margaret. Moving Towers: Worlding the Spectacle of Masculinities Between South Pentecost and Munich. In: ALEXEYEFF, K.; TAYLOR, J. (org.). Touring Pacific Culture. [S.l.]: ANU Press, 2016. p. 183-218. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/j.ctt1q1crs3.17.
LAND DIVING on Pentecost Island. TCS World Travel. Disponível em: https://www.tcsworldtravel.com/article/land-diving-pentecost-island.
PENTECOST. In: Encyclopædia Britannica. 2012. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Pentecost-island-Vanuatu.



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