top of page

Aikido

Morihei Ueshiba (1883–1969), o Ōsensei ("Grande Professor"), foi o fundador do Aikido. Transformou tradições marciais samurais em uma arte voltada para a harmonia, a paz e o desenvolvimento espiritual.
Morihei Ueshiba (1883–1969), o Ōsensei ("Grande Professor"), foi o fundador do Aikido. Transformou tradições marciais samurais em uma arte voltada para a harmonia, a paz e o desenvolvimento espiritual.

O Aikido é uma arte marcial japonesa moderna, fundada por Morihei Ueshiba (1883–1969), que transcende os propósitos puramente combativos ao integrar dimensões filosóficas, espirituais e éticas em sua prática. O termo Aikido (合気道) é composto por três ideogramas que definem sua essência: Ai (harmonia, união), Ki (energia vital, espírito universal) e Do (caminho, via de vida) (Fojtík, 2001). Esta tríade conceitual orienta a prática para além da técnica, configurando-a como um “caminho” (Do) de desenvolvimento pessoal e harmonização com as leis naturais.


Enquanto Fojtík (2001) enfatiza a busca pela coordenação física e pela resolução não violenta de conflitos, Bull (2022a, 2022b, 2022c) aprofunda a dimensão espiritual, definindo o Aiki como “o amor universal”, uma força centrípeta que agrega e harmoniza todas as coisas.



De forma geral, podemos definir o Aikido como uma disciplina que visa a integração do indivíduo consigo mesmo, com o outro e com o universo.


Conheça o Aikido


Fundamentos filosóficos e espirituais

A filosofia do Aikido está profundamente enraizada na concepção de que o universo é regido por um princípio harmonizador. Como já dissemos, Bull (2022a) descreve o Aiki como a manifestação do amor universal, uma energia que permeia e conecta toda a criação, promovendo ciclos vitais de equilíbrio. Essa força não é emocional, mas uma energia cósmica que “une e junta todas as coisas”. O fundador, Morihei Ueshiba, proclamava que sua arte era Ban Yu Ai Go, isto é, “amar e proteger todas as coisas” (Bull, 2022a). A prática, portanto, torna-se um exercício de sintonização com esse ritmo universal (Kokyu) e com a fonte criadora a que se pode chamar Deus, compreendido não de forma antropomórfica, mas como a energia impessoal que tudo permeia.


A base espiritual do Aikido, conforme Bull (2022a), é o Xintoísmo, a religião nativa japonesa, e não o Zen Budismo. Enquanto o Zen busca o estado de Mushin (mente vazia, “MU”) através da meditação estática (Zazen), o Xintoísmo enfatiza a purificação (Misogi) do corpo, da mente e das emoções para que o praticante, já visto como um ser divino (Kami), possa brilhar em sua essência.


O Aikido, assim, parte do conceito de SU” (totalidade, plenitude), e não de MU” (vazio). Seu objetivo é aumentar a percepção do praticante, conectando-o ativamente com o ambiente e com os outros, dentro de um espírito de cooperação e união conhecido como Yamato-Damashii (espírito japonês de união) (Bull, 2022a). Esta divergência é fundamental: o caminho do Aikido é de integração ativa, não de esvaziamento.


Origens históricas e evolução

As raízes marciais do Aikido remontam às tradições guerreiras samurais. Sua base técnica principal é o Daito-ryu Aikijujutsu, um estilo de combate desarmado existente desde o século IX, que Ueshiba estudou profundamente sob a orientação do mestre Sokaku Takeda a partir de 1915 (Fojtík, 2001).


Ueshiba também era praticante de outras artes, como o manejo da lança (Sojutsu) e da espada (Kenjutsu), cujos princípios de movimento foram incorporados ao Aikido.


Um ponto de virada decisivo ocorreu com o encontro de Ueshiba com o líder espiritual Wanisaburo Deguchi, da seita xintoísta Omoto-kyo, entre 1919 e 1925. Esse contato aprofundou sua busca espiritual, levando-o a transcender o objetivo meramente combativo das artes marciais (Fojtík, 2001).


A transição da arte de Ueshiba para o que hoje se conhece como Aikido foi um processo: em 1925, ele estabeleceu formalmente o objetivo de unir-se à energia do universo; em 1926, fundou seu primeiro dojo em Tóquio; e em 1942 o nome “Aikido” foi oficialmente adotado (Fojtík, 2001).


Esta evolução ocorre dentro do contexto mais amplo do Budô (Caminho Marcial). Bull (2022a) explica que, após um longo período de guerras, o Japão viveu uma era de paz durante o Período Tokugawa (séculos XVIII-XIX). Isso permitiu que as antigas técnicas de combate (Bujutsu) fossem transformadas em vias de desenvolvimento físico, mental e moral, recebendo o sufixo Do. Surgiram assim o Judô, o Kendo, o Kyudo e, mais recentemente, o Aikido. Enquanto o Bujutsu visava a destruição do inimigo, o Budô, conforme visão de Ueshiba, tem como meta o cultivo espiritual, moral e físico, onde a verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo (Fojtík, 2001).


Características técnicas e práticas

Tecnicamente, o Aikido é vasto, com cerca de 3.000 variações, embora o estudo básico se concentre em aproximadamente 150 técnicas fundamentais (Fojtík, 2001). Seu princípio basilar é a não-resistência e a harmonização com a força e a intenção do oponente (Uke). As técnicas podem ser classificadas em:


  1. Ataques e golpes (Atemi): Utilizados principalmente para distrair ou desequilibrar, abrindo caminho para uma técnica principal. Exemplos: Shomenuchi (golpe vertical na cabeça), Yokomenuchi (golpe diagonal) e Tsuki (soco direto).

  2. Técnicas de imobilização (Katamewaza ou Osaewaza): Controlam o adversário no solo através de alavancas articulares. As cinco principais são: Ikkyo, Nikyo, Sankyo, Yonkyo e Gokyo.

  3. Técnicas de projeção (Nagewaza): Utilizam a energia e o desequilíbrio do oponente para arremessá-lo. Incluem Shihonage (arremesso das quatro direções), Iriminage (arremesso de entrada), Kotegaeshi (torção do pulso) e Kaitennage (arremesso rotatório) (Fojtík, 2001).


A execução depende de princípios de movimentação essenciais: Irimi (entrada direta), Tenkan (giro e esquiva) e a arte de cair com segurança, o Ukemi. As práticas podem ocorrer em pé (Tachiwaza), ajoelhadas (Suwariwaza) ou em posturas mistas.


Morihei Ueshiba demonstrando técnicas do Aikido (1957). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=30Sa0PLquFg&t=67s

O Aikido contemporâneo

Após a Segunda Guerra Mundial, o Aikido, assim como outras artes marciais, democratizou-se e foi reformulado com forte caráter educativo. No Japão, os caminhos marciais (Budô) são parte integrante da educação física escolar, visando ao crescimento equilibrado da mente e do corpo, cultivando honestidade, disciplina, paciência e autocontrole (Bull, 2022a).


Uma característica distintiva e fundamental do Aikido é a ausência de competições formais. Enquanto artes como o Judô e o Karatê adaptaram-se ao formato esportivo, no Aikido a competição é vista como incompatível com seus princípios. Para Bull (2022b), “pensa-se que a competição humilha o derrotado” e, mais profundamente, o desejo de vencer já representa uma desconexão com o princípio de unidade (Ai). O treinamento é cooperativo: Uke (quem ataca/recebe a técnica) e Nage (ou Tori, quem executa a técnica) trabalham juntos para refinar a técnica, a percepção e a harmonia. O objetivo é o desenvolvimento da personalidade interior (kokoro), e não a vitória sobre o outro (Bull, 2022a).


O aspecto cultural se manifesta inclusive nos trajes. O uniforme (Dogi) e a faixa (Obi) são usados por todos. O Hakama (calça-saia tradicional samurai) é reservado aos praticantes graduados (geralmente faixas-pretas), simbolizando maturidade na prática e ocultando os movimentos dos pés para forçar o aprendizado mais pela sensação do que pela visão (Bull, 2022c).


O Aikido se apresenta, portanto, como uma síntese única no cenário das artes marciais. Emerge da tradição combativa samurai, mas é transformado por uma profunda revolução espiritual idealizada por seu fundador. Conjuga técnicas sofisticadas de defesa com uma filosofia de pacificação e integração. É um Budô no sentido mais estrito: um caminho de vida que utiliza o treinamento marcial como veículo para o autoconhecimento, a purificação e a harmonização com as leis universais. Como síntese geral, o Aikido é, em última instância, a arte marcial que busca transformar o conflito em uma ação harmoniosa, onde a vitória final é a conquista da paz interior e a união com o fluxo criativo do universo.

 


Referências:

FOJTÍK, Ivan. Aikidó: cesta harmonie. Praha: Naše vojsko, 2001.

BULL, Wagner. Aikidô: o caminho da sabedoria: Dobun história e cultura. São Paulo: Editora Pensamento, 2022a.

BULL, Wagner. Aikidô: o caminho da sabedoria: a teoria. São Paulo: Editora Pensamento, 2022b.

BULL, Wagner. Aikidô: o caminho da sabedoria: a técnica. São Paulo: Editora Pensamento, 2022c.

 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


Se inscreva para receber atualizações

Almanaque da Cultura Corporal

O seu site sobre a cultura corporal

  • Instagram
  • X
  • Linkedin

Almanaque da Cultura Corporal

Gerenciada por Gabriel Garcia Borges Cardoso

bottom of page